Eram 19h30, início de uma noite seca de junho. As savanas amareladas do Parque Nacional Serengeti, maior reserva natural da Tanzânia, davam lugar ao breu entre rugidos e uivos misteriosos. Os veículos de safári já tinham levado os visitantes de volta para os únicos quatro hotéis do parque e os funcionários que haviam terminado o expediente se trancavam em suas casas, nas isoladas vilas de empregados construídas a 1 quilômetro de cada hotel. Foi quando, despretensiosamente, o camareiro Leonce Marmo, 30 anos, quebrou a regra que proíbe qualquer caminhada naquela área inóspita. Cansado do confinamento causado pela ameaça real dos animais selvagens, Marmo foi visitar o alojamento dos motoristas de safári. ”Fica muito perto, a poucas centenas de metros da vila“, conta o guia Allawi Ally, 45 anos, que é quem narra o episódio. Quando o camareiro voltava para casa, aconteceu a tragédia: uma elefanta surgiu no caminho e, assustada diante da ameaça ao filhote que protegia, atacou o homem. Furou a barriga de Marmo com uma de suas presas, quebrou a perna direita dele ao atirá-lo ao chão e sumiu na escuridão. Internado em estado grave até hoje, Marmo sentiu um pouco do gosto cru da morte. Não como vítima de um crime ou de um acidente repentino do mundo civilizado, mas de um ciclo natural pela sobrevivência, no qual o homem é tão bicho quanto a hiena que devora uma gazela ou a zebra que foge do leão faminto. Nos rincões deste país do mais selvagem continente do planeta, o dia-a-dia se mostra assim, frio, visceral. Cruel.

Masai vestida com roupa típica (foto de Gilvan Barreto, www.gilvanbarreto.com)

 

O dia seguinte se passou pacato como todos os outros na região entre o norte da Tanzânia e o sul do Quênia, principal destino dos safáris na África. Por volta das 6 horas da manhã, quando o sol dourou as acácias, os visitantes surgiram pontilhando a savana. Protegidos por jipes robustos, eles chegaram com câmeras e binóculos para praticar o suave exercício de tiro ao alvo que pouco tem a ver com esta realidade selvagem. No Serengeti e nas reservas vizinhas de Ngorongoro, Lago Manyara e Tarangire, homens e mulheres de roupa cáqui e chapéu de Indiana Jones desfrutam o dia como voyeurs, de prazer quase sádico, vendo outras formas de vida lutar, dormir, copular e matar em busca de alimento.

Com a simpatia e a informalidade naturais dos tanzanianos, os 100 funcionários do Hotel Seronera disfarçaram o susto causado pelo acidente com Leonce Marmo. Pudera. Eles se acostumaram aos perigos daquele fim de mundo onde foram morar em busca de trabalho e dinheiro, uma vila de 400 parentes de funcionários do hotel distante 300 quilômetros de Arusha, a cidade grande mais próxima. Nos outros três hotéis do Serengeti, a realidade é a mesma: enquanto os turistas se divertem com o safári, o povo teme os animais. Três anos atrás, um funcionário do vizinho Sopa Lodge foi atacado por um búfalo, deixando a mesma sensação de que a vida humana é frágil demais neste território, onde um leão ataca outro da mesma espécie apenas porque teve seu espaço invadido.

Considerado patrimônio da humanidade e reserva da biosfera, o Serengeti nasceu em 1951 como o primeiro parque nacional da Tanzânia e foi primordial para fazer com que o turismo se tornasse a principal fonte de renda do país. Ameaçando a tradição dos parques do Quênia e da África do Sul, mais estruturados, o Serengeti atraiu 115000 visitantes no ano passado, o dobro de uma década atrás. O número cresce porque o safári em seu imenso altiplano de 15000 quilômetros quadrados é menos turístico e porque brilha como palco da migração de mais de 1 milhão de gnus, um dos maiores espetáculos do mundo selvagem. Todos os anos os gnus deixam as planícies do Serengeti nos meses de seca, junho e julho, e galopam em fila indiana rumo ao bom pasto e às reservas de água do Quênia, mais de 1000 quilômetros ao norte.

De lá eles só saem entre outubro e novembro. Com as fêmeas prenhas, os gnus voltam para o Serengeti em busca das chuvas que tornam verdinha a savana e à espera do tempo da reprodução, em fevereiro, quando chegam a nascer 8000 gnuzinhos por dia. Curiosamente, 200000 zebras acompanham os gnus caminhando lentamente em uma fila paralela, enquanto 400000 antílopes pastam, soltos, próximos às duas filas. Com um poder de visão aguçado, as zebras fogem rapidamente sempre que avistam um predador. Os gnus, que enxergam mal, as seguem e muitas vezes conseguem se safar. Ruminante estranho, meio boi, meio cavalo, o gnu retribui mostrando às amigas listradas os melhores lugares para pastar e beber água. ”Eles sentem o cheiro da chuva a 200 quilômetros de distância“, diz o guia Allawi Ally, que repetiu mais de cinqüenta vezes, nos últimos doze anos, o roteiro de Arusha ao Serengeti.

Arusha, 500 000 habitantes, é o centro geográfico do continente africano e ponto de partida para visitar o Serengeti e as outras reservas do norte da Tanzânia, inclusive o Parque Nacional Kilimanjaro, que abriga a maior montanha da África. Chamado de ”Kili“, este vulcão de 5895 metros de altura, que não pertence a nenhuma cordilheira, exibe um cume central sempre nevado em meio à extensa planície árida da Tanzânia, 3 graus ao sul da Linha do Equador e na fronteira com o Quênia. Das 10500 pessoas que fazem trekking aqui anualmente, só 40% sobem algum dos três picos.

Na rota de Arusha ao Serengeti, por estradas de terra e sem acostamento, os jipes podem ir a dois pequenos parques nacionais. O Tarangire, a 75 quilômetros de Arusha, famoso por sua grande população de elefantes, e o Lago Manyara, a 115 quilômetros da mesma cidade, repleto de aves e de baobás (a árvore do livro O Pequeno Príncipe) de 300 anos. Aqui, abismos de 200 metros anunciam o famoso Vale do Rift, fenda de 6 500 quilômetros que corta a África – preenchido, neste trecho, pelo lago azul que dá nome ao parque.

Arca de Noé. Como um tapete amarelo sem fim, a savana enche a paisagem com suas árvores baixas e esparsas até que surge Ngorongoro, cratera de um vulcão extinto habitada por 20000 bichos e considerada uma das maiores preciosidades ecológicas do mundo. Com 264 quilômetros quadrados, esse buraco circular de nome sonoro só pode ser bem visualizado do alto da crista da serra formada por sua boca, distante 16 quilômetros da borda oposta. Parte de um complexo de nove vulcões que vêm se transformando há 4 milhões de anos, o Ngorongoro tinha a altura do Kilimanjaro e, ao entrar em erupção, seu interior foi afundado. O tempo se encarregou de transformar seu fosso de 600 metros de profundidade num saudável pasto cheio de bichos, onde caberia a cidade pernambucana do Recife e onde a cadeia alimentar se sucede harmoniosamente.

Uma estradinha estreita desce até o fundo do Ngorongoro e outra sobe, permitindo que até 200 veículos de safári circulem ao redor do lago interno nos dias de alta temporada. Curioso é que, com exceção dos elefantes, que sobem até a crista para copular, nenhum outro bicho sai de dentro dessa espécie de arca de Noé contemporânea. Embaixo, o resultado da caçada animal de todos os dias é a série de esqueletos e carniças rodeados por marabus, espécie de urubu com jeitão de tuiuiú. Apesar da proibição da caça na região, o vulcão é ameaçado por caçadores até hoje – principalmente os somalis, loucos por presas de marfim dos elefantes e chifres de rinoceronte. A proteção vem dos guardas, que trabalham até de noite na área de conservação criada aqui, e da lei, que impediu que os 40000 masais da região continuassem levando seu gado para pastar na cratera.

Quase tão exóticos e selvagens quanto os animais, os masais são os moradores mais comuns do gigantesco corredor ecológico de 25000 quilômetros quadrados que liga sete reservas da região, do Serengeti, na Tanzânia, ao Parque de Masai Mara, no sul do Quênia, numa extensão equivalente ao Estado de Sergipe. Negros esguios vestidos com batas vermelhas para espantar os leões, os masais vivem migrando em busca de bom pasto para seu gado. ”Nosso povo nasceu no Egito há 700 anos“, explica Mbirias Oleketto, 42 anos, um masai que fala inglês, usa relógio e atua como relações-públicas da aldeia Seneto Manyata, a mais próxima da borda do Ngorongoro – e, por isso mesmo, a mais turística. Eles vendem artesanato de miçanga colorida e cobram absurdos 50 dólares de cada um dos quinze carros que se aproximam por dia, enquanto cantam e saltam com as pernas estendidas a até 1 metro do chão – uma tradição mantida apenas para gringo ver.

Vacas valiosas. Na vida real, estes nômades adeptos da poligamia só cantam em casamentos, quando oferecem vacas ao futuro sogro em troca da mão da noiva. É na compra do gado, por sinal, que eles gastam o dinheiro que ganham. Mbirias Oleketto pagou três vacas por cada uma de suas duas mulheres. Elas vivem separadas em duas das 25 choupanas construídas com esterco de vaca grudado em armações de madeira.

A disposição das casas, escuras e cheias de moscas, é sempre a mesma, circular e com um cercado para o gado. Os hábitos selvagens não param por aí: os masais bebem o sangue da caça misturado com leite, além de os meninos das aldeias mais tradicionais precisarem matar um leão para entrar na vida adulta. Detalhe: eles não têm doenças. “As ervas resolvem nossos problemas”, diz Oleketto, um negro forte que parece ter adquirido todos os anticorpos necessários para viver sem banho por dias.

A bravura dos masais e dos tanzanianos que vivem neste lugar foi herdada dos mais antigos ancestrais. Foram achadas no sítio arqueológico de Olduvai Gorge, 30 quilômetros antes do Serengeti, ossadas de dinossauros e os restos do Australopithecus afarensis, que viveu há 3,6 milhões de anos, considerado até dezembro último o primeiro hominídeo bípede do mundo (ver seção Volta ao Mundo), como se vê no pequeno museu que funciona no local.

Basta passar sob a placa que separa a reserva de Ngorongoro da do Serengeti para que búfalos, avestruzes e girafas surjam ao lado da pista. Todas as manhãs, eles deixam seus esconderijos noturnos em busca de água e alimento. Carnívoros como hienas e guepardos são observados enquanto rondam as vítimas que virarão o banquete do dia. Nos passeios diários no Serengeti, que percorrem em média 150 quilômetros, não se passam cinco minutos sem avistar um animal, principalmente nos arredores do Rio Seronera, oásis da bicharada. O último censo do parque, no início do ano, apontou a existência de 530 espécies de pássaros e 28 de animais terrestres, entre eles as cinco mais admiradas, que fazem parte dos “big five”: búfalo, leão, elefante, rinoceronte e leopardo. Só para se ter uma idéia, foram contados 21500 búfalos terrestres, 1600 elefantes e 6200 girafas. “Os mais ameaçados de extinção são o cachorro-do-mato e o rinoceronte, raríssimos”, diz Pius John, chefe dos guardas florestais.

Bicho via rádio. Os guias se orgulham de sua habilidade para ver, de longe e sem binóculo, qual bicho está vindo e o sexo. Pequenas curiosidades sobre cada animal vão sendo contadas à medida que eles se aproximam, ignorando a presença do carro. As girafas se alimentam de plantas cheias de espinhos e não machucam a língua – longa o suficiente para dar uma volta na cabeça humana. Os macacos babuínos adoram reunir-se no alto das árvores para assistir ao incrível pôr-do-sol africano. O crocodilo-do-nilo, maior carnívoro do Serengeti, pode viver até um ano (dos seus 100 de vida!) sem comer. Quando chove, quase todos se protegem, os felinos em especial. Em seguida, é melhor procurá-los nos kopjes, montes de pedras com 4,5 bilhões de anos que acumulam água e alimento e que quebram a monotonia da planície. A única alternativa de passeio, além da observação de animais, é a visita aos kopjes com inscrições masais do século passado.

A preferência dos viajantes, no entanto, é ver de perto todos os animais possíveis. Se faltar algum, basta pedir que o guia entre em contato por rádio com os outros carros para saber em que ponto daquela imensidão há, por exemplo, uma família de leopardos dando sopa, como se esperassem para ser fotografados. Melhor retrato da África natural, o Serengeti é, de fato, uma espécie de zoológico sem grades. Um lugar onde a caçada dos bichos carnívoros, o perigo da subida ao Kilimanjaro, os hábitos animalescos da tribo masai e até a agressão de um elefante a um homem são apenas acontecimentos corriqueiros da Tanzânia selvagem.

(fim do texto principal)

 

País de paz

Diferentemente de grande parte das 53 nações africanas, a Tanzânia não vive problemas como guerra civil, miséria, epidemias ou conflitos raciais e religiosos. Pelo contrário, o governo atua como mediador e abriga refugiados de nações vizinhas como Burundi e Ruanda. Influenciada pelo domínio de árabes, portugueses, alemães e ingleses no passado, a população de 32 milhões de habitantes se divide em três grupos religiosos do mesmo tamanho: cristãos, muçulmanos e adeptos de crenças tradicionais africanas. O principal responsável pela paz e pela adoção da língua suaíle entre as 120 tribos de negros nativos foi o presidente Julius Nyerere, falecido em 1998, tão reverenciado em sua pátria como Nelson Mandela na África do Sul e tão revolucionário quanto Fidel Castro foi em Cuba. Em 1961, quando era presidente, Nyerere conquistou a independência de Tanganica, nome do país enquanto era colônia do Reino Unido e não havia anexado a Ilha de Zanzibar. Foi quem implantou o socialismo africano, criando comunidades rurais e melhorando a educação e a saúde – apesar do regime de partido único. Suportado por países como China e União Soviética, o socialismo durou até a década de 80. Nyerere governou por 25 anos, até 1986, mas permaneceu como o político mais importante da Tanzânia até 1990.

 

Rota mais curta

É mais fácil chegar a Arusha a partir de Nairóbi, capital do Quênia, 277 quilômetros ao norte, que de Dar es Salaam, maior metrópole e antiga capital da Tanzânia, 700 quilômetros ao sul. A atual capital é Dodoma.

 

PARA QUANDO VOCÊ FOR

Chegar lá

A South African Airways (tel. 0800 118383) oferece dois vôos semanais (por 1700 dólares) ligando São Paulo a Joannesburgo, na África do Sul, com extensões para a Tanzânia e o Quênia. O visto é obtido lá e custa 20 dólares em cada um dos três países. De Nairóbi até Arusha viajam-se três horas de ônibus.

Hotéis caros

Tanto os dez lodges, hotéis de safári com diárias de 200 dólares (como o Lake Manyara Lodge, foto abaixo), quanto os trinta campings de luxo espalhados por Serengeti, Ngorongoro (na foto à esq., a entrada do parque) e Lago Manyara têm preços salgados. Nos dez campings públicos, que ficam nos arredores do parque, como em Mto Wa Mbu, pagam-se 20 dólares por dia, mas é preciso contratar os serviços de safári.

Vá em julho

Prefira viajar em junho e julho, quando não chove e os gnus estão migrando para o Quênia. As chuvas curtas, de outubro a dezembro, e as chuvas fortes, entre fevereiro e maio, assustam os animais. Prefira a seca para subir o Kilimanjaro. Se precisar de um guia, procure Silvano Hamisse (siladv@yahoo.com).

Dinheiro vivo

Com girafas desenhadas nas notas (à dir.), a moeda local é o xeling tanzaniano. Um dólar americano vale 800 xelings. Você vai precisar de 9600 xelings, ou 24 reais, para comprar o lanche mais barato nos lodges.

Aula de suaíle

Embora quase todos entendam inglês, você conquistará amigos se aprender um pouco de suaíle, língua meio árabe, meio africana, oficial do país:

Jambo = olá, tudo bem?

Salama = bem

Tafadhali = por favor

Samahani = desculpe-me

Asante = obrigado

Karibu = bem-vindo

Sem economia

Agências como a Highland (tel. 0800 558667), a Mundus (tel. 0_ _11/289-9786) e a GPS (tel.0_ _11/3088-1311) oferecem pacotes: quinze dias na Tanzânia não custam menos de 4300 dólares. Quem for por conta pagará cerca de 300 dólares por dia de safári em agências como a Leopard Tours (www.leopard-tours.com), que tem 120 jipes. Cada dia de escalada ao Kilimanjaro custa 100 dólares.

Cuide do corpo

A vacina contra a febre amarela deve ser tomada com oito dias de antecedência. Não ingira as pastilhas contra a malária, agressivas ao organismo. Beba apenas água mineral e evite os sucos e as saladas.

Dica do autor

”Em todo canto alguém vai lhe pedir um trocado. Leve canetas para presentear as crianças: é o agrado que faz com que se sintam mais valorizados. E tenha sempre à mão uma nota de 1000 xelings (pouco mais de 1 dólar), para dar de gorjeta aos carregadores de bagagem e às pessoas que você pretende fotografar.“

Daniel Nunes Gonçalves

 
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Publicado em:
Revista Os Caminhos da Terra

Edição:
105

Data:
01/2001

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