O cenário é estranho. O mato ralo e os cactos da caatinga chegam pertinho do litoral, misturando jegues e cabras típicos do sertão seco e pobre com a beira-mar de praias belas e intocadas, coloridas por manguezais, dunas e jangadas. Justamente aí surgem as salinas, vastos alagados onde a água do mar fica represada em tanques ladeados por montanhas de sal brancas como a neve. Com essas paisagens exóticas, o extremo norte do Rio Grande do Norte, a quase 300 quilômetros de Natal, abriga os 250 quilômetros da Costa do Sal, um litoral onde a vida depende totalmente do mar — para pescar o peixe de cada dia e para extrair a essência do oceano: o sal.

(foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

Por ser o lugar do planeta mais propício à extração de sal marinho, com sol constante e dez meses sem chuva, esse trecho do Rio Grande do Norte se tornou o maior produtor de sal do Brasil. De Macau, Areia Branca, Grossos e Galinhos, principais cidades salineiras do Estado, saem 90% da extração nacional. Seu mar de águas verdes, calmas e mornas tem a segunda maior salinidade do planeta, perdendo apenas para o Mar Morto. Ficam aí a maioria das 150 salinas brasileiras, onde 8 000 homens vivem aguardando a evaporação lenta da água do mar.

Em meio à dureza de uma das principais atividades econômicas do Nordeste, a surpreendente sucessão de praias virgens surge como agradável compensação. O sol dessa região tão próxima da linha do Equador bate mais forte e dá o prazer de sua presença durante todo o ano. Faz dois anos que ninguém vê uma gota d’água cair do céu na Costa do Sal. Isso é bom para os salineiros, pois a produção cresce, mas fatal para quem explora a agropecuária. Como não há lavoura ou gado que resista a tanto calor, come-se carne de bode e de cabra — que, por sua vez, se alimentam da duradoura vegetação do mangue.

O mesmo sol que doura as praias sacrifica especialmente os trabalhadores das chamadas salinas artesanais, que ainda não foram mecanizadas. Várias delas podem ser vistas nos arredores de Mossoró, a 277 quilômetros de Natal, mais conhecida por ser a segunda maior cidade do Estado, principal produtora de melão do Brasil e centro do maior número de refinarias que transformam o sal bruto das salinas em nosso sal de cozinha (acrescido de iodo, obrigatório pelo Ministério da Saúde, para evitar a doença do bócio). As salinas artesanais acompanham os dois lados da estrada que liga Mossoró à cidade litorânea de Tibau. Junto à divisa com o Ceará e conhecida pelo artesanato das garrafas de areia colorida, Tibau tem uma extensa faixa de areia onde carros, mesmo sem tração nas quatro rodas, podem circular até a vizinha Grossos, quando a maré está baixa. Aqui, a mecanização que revolucionou o método de extração do sal, quinze anos atrás, tem chegado a passos lentos.

Sal moeda. Os métodos usados nas rústicas salinas de Grossos, que ficam ao lado dos recifes da isolada Praia de Pernambuquinho, são primitivos. Charmosa, a orla é a única do roteiro onde os barcos coloridos dos pescadores ficam ancorados junto às montanhas alvas de sal, num contraste inusitado. No lado branco, as salinas são tão simples que fazem lembrar até os primeiros registros arqueológicos da extração do sal, no Período Neolítico, cerca de 10 000 anos atrás. Embora a importância desse alimento sagrado tenha variado bastante — ele já foi usado como moeda tão valiosa quanto o ouro e como iguaria rara, motivo de muitos conflitos entre países ao longo da História —, a forma de explorá-lo não mudou muito.

Represada, a água do mar vai sendo transferida de um tanque raso para outro — em Grossos, impulsionadas por antiquados moinhos de vento. Aquecido pelo sol, o líquido muda de cor e fica denso até ser evaporado, restando o sal. Num calor infernal, a pele fica grudenta pela maresia desse ambiente úmido e os olhos ardem por causa do reflexo dos branquíssimos montes de sal.

(foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

“Esse é um trabalho pra cabra corajoso”, orgulha-se o salineiro Francisco José do Nascimento, 20 anos, que desde os 15 usa uma espécie de picareta, chamada de chibanca, para extrair o sal. Em março, Francisco e seu colega Antônio José da Silva, o Pitão, de 21 anos, se dedicaram à ingrata missão de picar o sal de um tanque — também chamado de balde — de 50 por 50 metros de uma salina da cidade de Areia Branca, a 15 minutos de balsa de Grossos. “Precisamos de dez homens trabalhando três semanas para extrair o sal de um único balde”, enfatiza Pitão. A pele dos pés de quem não tem dinheiro para comprar botas fica dura e machucada pelo contato com o chão rasgante. “Fiz um corte pequeno na sola do pé, que com sal virou uma enorme ferida”, reclama o salineiro Zenildo de Assis dos Santos, 26 anos, que usa uma atadura no pé esquerdo. Seu companheiro, o operador de trator Francisco Pereira da Silva, 58 anos, usa um óculos fundo-de-garrafa para tratar dos quase 3 graus de miopia adquiridos ao trabalhar no sal, por quarenta anos, ofuscando os olhos sem os óculos especiais usados nas grandes salinas. A recomendação do feitor — o chefe — é que os salineiros protejam o corpo do sal e do sol.

Câncer. As mesmas montanhas alvas das salinas de Areia Branca que causaram, décadas atrás, glaucomas, problemas de visão e de pele em trabalhadores, hoje são uma atração da cidade. Tanto é que, dois anos atrás, atores como Du Moscovis e Letícia Sabatella circularam pela cidade para gravar imagens para o filme Bela Donna, de Fábio Barreto. Nenhum set deve ter sido tão agradável, porém, como as praias de Areia Branca — principalmente aquelas distantes do centro. A Praia Redonda, por exemplo, vive com a mesma calma de sua grande parcela de aposentados, que permanecem sentados ao redor da pracinha central e da igreja dia após dia.

Apesar do típico sossego caiçara, há moradores que reclamam do sobe-e-desce pelas dunas, obrigatório para chegar à beira-mar de Redonda. “Duro é voltar da praia carregando balaios cheios de peixe”, resmunga Gilvan Pereira da Costa, 21 anos, pescador de um dos treze barquinhos locais. “Dizem que a vida era bem melhor no tempo da vila antiga, que ficava em frente à praia e foi engolida pelas dunas quarenta anos atrás”, conta. Apesar disso, Gilvan adora o cantinho onde vive, o ofício da pesca, a companhia dos golfinhos no barco e o entardecer visto das dunas. O novo centro de Redonda, erguido na parte alta, virou um mirante onde se avista, além do pôr-do-sol ardente do céu potiguar, o Porto Ilha, gigantesca plataforma construída em alto-mar, a 25 quilômetros de Areia Branca. É para lá que seguem as barcaças de sal que partem de todas as salinas da região. Elas repassam sua carga de 1 500 tonelada para navios de 35 000 toneladas que rumam para o sudeste do Brasil ou a costa leste dos Estados Unidos.

O entardecer é igualmente belo na praia de São Cristóvão, ideal para caminhadas diante de sua bela seqüência de falésias. No alto de uma delas fica um pitoresco cemitério de cruzes coloridas, num cenário idílico de frente para a imensidão do oceano. São Cristóvão só rivaliza em beleza com a Ponta do Mel, pérola da Costa do Sal e única dessas vilas onde é possível se hospedar. A casa de Eloísa Rodrigues de Oliveira, a dona Luquinha, de 66 anos, dá hospedagem a poucos passos da praia, serve comida aos forasteiros e oferece a simpatia dos membros da família Oliveira. Naide, de 20 anos, uma das filhas de dona Luquinha, cuida da pousada. Sua irmã Néia toca o Bar Beirão, de frente para o mar com sua parede coberta de conchas e com telhado de palha de carnaúba trançada. Dos outros irmãos, Ernan cuida da oficina da cidade, Eliane atende o único telefone e Elialva é diretora da creche. “É bom que estamos no ponto da cidade onde tudo acontece”, anima-se Naide. Isso quer dizer que a Rua Manoel Filgueiras dos Santos, paralela à praia com rochas de formas curiosas, é o centro onde ficam a padaria, a mercearia e o posto da Telern — aquele onde Eliane trabalha.

Enquanto os pescadores de Ponta do Mel vão ao mar, a vila segue sua rotina mansa, a passos lentos, ao som de forró. Oito habitantes da cidade — inclusive dois pescadores — montaram um conjunto local, o Cheiro de Caju, que toca até no centro de Areia Branca. À noite, o céu estrelado, invariavelmente sem nuvens, cobre os casebres onde as pessoas dormem em redes, com as portas abertas para suportar o calor. O caminho que leva ao Farol de Ponta do Mel, de onde se tem uma vista ampla de sua praia de areias fofas e amareladas, é o mesmo que segue acompanhando o mar até Porto do Mangue: uma longa estrada de cascalho — aqui chamado de piçarro — que mescla paisagens com coqueiros do litoral, cactos da caatinga, montes de cabras e de jegues torrando sob o sol. A cidade, portuária e com salinas, abriga as desertas dunas da Costinha, a meia hora de barco pelo meio de um manguezal quase virgem.

  • (foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

Piçarro. Mangues preservados são raros na região das salinas, já que eles costumam ser inundados na criação de cada balde de sal. Ironicamente, o problema ecológico cria um visual curioso: as melhores praias de Macau, a próxima cidade da rota, são decoradas por troncos de manguezais ressecados pelas salinas, em areias cobertas por conchas do mar. Pontilham o caminho os chamados “cavalos”, máquinas semelhantes a grandes gangorras que extraem o petróleo da terra em poços com até 3 000 metros de profundidade. Mantidos pela Petrobrás, os milhares de cavalos do Rio Grande do Norte transformaram o Estado no líder nacional desse tipo de extração e empregam tanta gente quanto as salinas.

Primeira cidade onde os navegadores portugueses perceberam o potencial de exploração do sal brasileiro, Macau ganhou o mesmo nome de uma colônia lusitana na China e vive do sal explorado basicamente por grandes salinas, como a Álcalis e a Henrique Lages. Com linhas de produção modernas e trabalho noturno para evitar a inclemência do sol, as salinas de Macau só possuem moinhos como enfeite, movimentados pelo mesmo vento que afasta para longe as nuvens formadas pela evaporação dos tanques. Além dos moinhos, também os salineiros estão em extinção, substituídos por operadores de máquinas: as grandes salinas empregam apenas um quarto do número de funcionários que trabalhavam antes da mecanização. A monotonia da seqüência de baldes de sal de Macau só é quebrada pela paisagem simples das praias de Diogo Lopes, Barreiras e Soledade, todas desertas, com muitas conchinhas e acessíveis apenas por buggies. Coqueiros, barcos de pesca, casas de pau-a-pique e varais de secagem de peixes tornam deslumbrantes as vistas do alto das vilas.

A paz também é a primeira boa impressão para quem chega de barco à Ilha de Galinhos, a partir de Guamaré. Não há carros nas ruas de areia dessa que é a terra do saboroso peixe-galo. Guiadas por crianças, as charretes puxadas por burros e jegues, também chamadas de jumentáxis, são o único meio de transporte da cidade. A simpatia da gente local e as águas cristalinas das praias desertas começam a conquistar visitantes esporádicos. Duas das únicas três pousadas, por exemplo, são de propriedade de italianos que se apaixonaram pelo lugar.

As belas salinas de Galinhos, apesar de ficarem no continente, também são o ganha-pão de alguns moradores locais. Todos os dias, quando o sol ainda nasce, esses trabalhadores pegam carona no barco dos pescadores até as montanhas de sal. As embarcações são as mesmas que levam os raros aventureiros para conhecer as dunas da Ilha do Capim e a bucólica praia de Galos, do outro lado da ilha. E o caminho, mais uma vez, é o mar — a inesgotável fonte de vida de jangadeiros e salineiros.

Para ir mais longe

Barro Blanco, romance de José Mauro de Vasconcelos, Ed. Melhoramentos.

Minhas Memórias de Areia Branca, de Luiz Fausto de Medeiros, Coleção Mossoroense — romance regional com histórias da pesca e do sal.

 

DO MAR À COZINHA

 

A água do mar é represada em tanques chamados de baldes, passando de um ao outro até que seja evaporada durante seis meses.

Uma crosta de 20 centímetros de sal cristalizado é colhida por uma máquina que funciona como as que varrem a neve das ruas.

Carrinhos levam o sal para esteiras lavadoras. Em seguida, o sal bruto é curado em pilhas de até 12 metros de altura.

Escavadeiras tiram o sal da pilha e colocam em esteiras que os levam para navios ou caminhões, para que vire sal grosso ou refinado.

 

GUIA DA TERRA:

COMO CHEGAR – Não é preciso ir de buggy de Natal para a Costa do Sal, embora ele garanta viajar pela areia das praias. Um carro comum chega em todos os lugares e é mais confortável na viagem de até 4 horas pelo asfalto até as cidades base do roteiro: Mossoró, a 277 quilômetros pela BR-304, e Macau, a 190 quilômetros pela BR-406. O asfalto de todas as estradas, inclusive as vicinais, está bem conservado. A pequena RN-012 beira a praia entre Tibau e Grossos. Daí pega-se uma balsa de 15 minutos até Areia Branca. A estrada de piçarro que leva a todas as praias de Areia Branca não tem placas, fique atento. A pista de Ponta do Mel até Porto do Mangue é precária mas tem um visual fantástico. Para ir a Macau é preciso rodear o Rio Assu por estradas regionais via Pendências. E de Macau a Guamaré, de onde saem os barcos para Galinhos, dirige-se pela RN-221 por quase 2 horas. O barco funciona em horário comercial, e o carro fica em um estacionamento no Portinho. Caso você vá chegar durante a noite, solicite um barco aos donos das pousadas.

ONDE FICAR – Melhor evitar as cidades grandes, como Mossoró e Macau. Prefira praias menores, mais charmosas e hospitaleiras. O problema é a precariedade da estrutura: nos quartos da Pousada da Dona Luquinha (tel. 084/ 332-2269), em Ponta do Mel, e da Dalva (tel. 084/525-2260 e 2261, ramal 26), em Galinhos, não há nem portas separando dormitórios e banheiros. Muito simples, ambas servem refeições e fazem o hóspede se sentir parte da família. Em Galinhos, existem ainda os Chalés Oásis (tel. 084/9431-9672) e a Pousada Adoro Vocês (mesmo telefone da Pousada da Dalva), dos italianos. Leve roupa de cama e banho. Atenção: postos de gasolina são raros nesses 250 quilômetros. Quem preferir dormir em Areia Branca, a 110 quilômetros de Mossoró pela BR-110, tem como opção a confortável Pousada Porto do Sal (tel. 084/332-2386).

MELHOR ÉPOCA – É o ano todo. Mas no inverno, entre março e maio, chove nas salinas.

DICA DO AUTOR

“Algumas estradas do roteiro são fantásticas, em especial a que liga Ponta do Mel a Porto do Mangue, de cascalho. Deserta, ela mistura paisagens de caatinga, praias, falésias e dunas. Cuidado para não atolar nos trechos invadidos pela areia. E sinta-se o viajante mais solitário do planeta.”

Daniel Nunes Gonçalves

 
Publicado em:
Revista Os Caminhos da Terra

Edição:
84

Data:
Abril/1999

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