Vocês viajaram de bugue pela praia desde Natal?”, perguntou com ar surpreso a mulher que descascava mandioca numa casa de farinha da cidade potiguar de São Miguel do Gostoso. “Tem louco pra tudo!”, continuou Vera Lúcia da Silva, depois de uma sonora gargalhada. Para ela, a viagem dos forasteiros em bugues parecia um sacrifício. Acostumada à rotina de pesca de parte dos doze filhos e ao trabalho com farinha na simpática praia onde vive, a perplexa Verinha, como é conhecida, 38 anos, não entendia que uma empreitada com sol na cabeça, pouca roupa e brisa no rosto é o que todo mortal estressado pediria a Deus. Estávamos apenas no fim do segundo dia de uma aventura que duraria uma semana e que percorreria 700 quilômetros e 100 praias do extremo Nordeste do Brasil, desde Natal, no Rio Grande do Norte, até Fortaleza, no Ceará. E tudo com calma, tendo como única preocupação a escolha das vilas de pescadores onde tomar banho de mar, beber água-de-coco e comer lagosta fresca.

(Ponta Grossa, foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

 

Gostosa, a gargalhada de Verinha traduz bem o alto-astral do lugar do primeiro pernoite fora de Natal. No século passado, a pacata vila de São Miguel teve adicionado ao seu nome o curioso complemento “do Gostoso“, em homenagem a um comerciante contador de histórias engraçadas conhecido por sua risada divertida, “gostosa“, como a de Vera. Apesar de o nome oficial ser São Miguel de Touros, a maior parte dos 5000 habitantes do centro urbano prefere o outro título. Até a placa na entrada da cidade dá as boas-vindas com a mensagem “Aqui você faz gostoso“. Depois do dia anterior em Natal ter sido dedicado aos preparativos da viagem, o primeiro dia de deslocamento dos dois bugues terminava feliz, sem imprevistos. À medida que se dirige para o norte, a praia vai ficando mais bela e as casas de veraneio da orla dão lugar às vilas de pescadores em praias desertas.

No ritmo da natureza. Os passeios de bugue pela praia acontecem na região há quinze anos. Poucas pessoas se arriscam a trocar a velocidade na estrada asfaltada entre Natal e Fortaleza pela aventura a 40 km/h na areia. “Uma longa rota de bugue requer macetes de pilotagem“, diz o bugueiro Cláudio Chueiri, 47 anos, que repetiu o trajeto seis vezes nos últimos oito anos. O motorista precisa enxergar desníveis do solo, trechos de areia fofa e riachos que desembocam no mar. Deve ainda dirigir apenas nos horários em que a maré permite – e isso varia conforme a fase da Lua. Sempre que a maré sobe, o trecho de areia seca diminui, obrigando o viajante a esperar a vazante ou dirigir em estradas paralelas. Com a maré baixa, os obstáculos são os trechos com pedras e os rios, onde nativos oferecem a travessia em jangadas.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

A variedade das paisagens impressiona. Depois da seqüência inicial de dunas e lagoas de Genipabu, despontam os extensos coqueirais do Cabo de São Roque, ponto da América mais próximo do continente Africano. Em seguida, as piscinas naturais de Maracajaú, a 7 quilômetros da costa, surpreendem os mergulhadores com o desfile de budiões, moréias e polvos em águas azuis incríveis. O cenário paradisíaco se repete à frente, nas piscinas de Rio do Fogo.

Ao norte, a orla de areia fina curva-se para a esquerda e delineia a esquina nordestina brasileira, em Touros, onde o Farol do Calcanhar, com seus 62 metros de altura, evita que novos naufrágios ocorram na região. Considerado o maior da América Latina, ele oferece um mirante no alto de seus 298 degraus, de onde se avista São Miguel do Gostoso e se percebe que os bugues passarão, no dia seguinte, a circular no litoral virado para o norte, e não mais para o leste. A tábua de marés, que orienta pescadores e bugueiros apontando os horários de cheia e vazante, muda totalmente.

Nordeste pré-histórico. O primeiro barco se preparava para deixar a praia de Gostoso, às 6 horas da manhã do dia seguinte, quando os dois bugues partiram pertinho do mar, onde a areia é mais dura. Os homens da jangada comentavam o evento da noite anterior, a apresentação de um circo itinerante com direito a show da Tiazinha. “A Tiazinha da televisão?“, pergunta alguém. “Não, uma igualzinha, veio lá do Recife“, responde outro, entusiasmado. São Miguel do Gostoso é realmente uma cidade engraçada… O papo sobre os atributos da moça continuou enquanto os pescadores ajeitavam os 100 covos, gaiolas de pescar lagosta que seriam deixadas no mar até o dia seguinte. Zarparam. Um visitante caminhava na praia, anunciando o turismo discreto que começa a descobrir Gostoso. A cena dificilmente seria vista um ano atrás, quando o asfalto da BR-101 ligando Natal a Touros não estava concluído.

As formações rochosas que aparecem no terceiro dia têm tanto valor que já se tentou criar ali um parque. Em Tourinhos despontam paredes escuras, de até 5 metros de altura, que parecem ter sido lapidadas e polidas pela chuva e pelo vento. “São dunas petrificadas que existem há pelo menos 7500 anos“, explica o geólogo Eduardo Bagnoli. Nos areais que beiram a praia, surgem os bosques petrificados, um fenômeno mundial raríssimo.

Quem não tocar não vai perceber, mas os troncos secos brotando do chão são pedras. Há milhares de anos as árvores foram cobertas pelas dunas, endureceram e ressurgiram quando a areia se moveu. Na Ponta dos Três Irmãos, perto dos galhos, muitas conchas escondem pedras lascadas usadas como ferramentas indígenas. “Talvez os índios se alimentassem dessas conchas na sombra do bosque“, diz Bagnoli. Se a rodovia litorânea Touros–Fortaleza, que será construída em 2001, não evitar passar por ali, essas relíquias se perderão.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Os cactos da caatinga beirando esta costa de ondas fortes comprova que estamos no trecho mais árido e isolado da viagem. Água doce é um artigo tão raro que as lagoas formadas pela chuva nas dunas são usadas para regar plantações de batata e mandioca, para que as lavadeiras lavem roupas e para que homens e animais tomem banho. “Eu e o Campineiro andamos uma hora para chegar aqui“, diz o vaqueiro Cícero César, 19 anos, enquanto lava seu boi, o tal Campineiro.

Banquete indígena. A Praia do Marco, onde foi cravado o primeiro marco português no Brasil, em 1501, remete a um passado mais curioso do que aparenta a réplica local da cruz portuguesa (a original está em Natal, no Forte dos Reis Magos). Depois de fixar o monumento, a expedição de Gaspar de Lemos se aproximou, de bote, dos índios potiguares que descansavam na areia fofa da praia vizinha de Ponta do Santo Cristo. Foi quando os índios mostraram sua ferocidade. Nadaram até um dos barcos e dele retiraram um padre, que foi arrastado até a praia e, diante dos olhares de outros portugueses, morto e devorado pelos selvagens. Os potiguares continuaram resistentes até o final do século, ocasião em que foram enfim dominados.

O sol parece mais forte e a água do mar, mais salgada, na Ilha de Galinhos, ponto final do terceiro dia e inicial da chamada Costa do Sal. Os golfinhos costumam acompanhar a balsa que leva a esta vila de 1800 habitantes e chão de areia. Como praticamente não há carro em terra firme, os viajantes se locomovem em charretes puxadas por jumentos, os jumentáxis. Simpática vila de casas coloridas, Galinhos é comandada há décadas pelo pulso firme da prefeita Jardelina Pereira, 73 anos, espécie de coronel local. Ao entardecer, ela costuma arrastar uma cadeira até a frente de casa, onde, sentada com toda pompa, escuta os lamentos das moradoras.

A cor branca das salinas e dos belos bancos de areia da Ponta do Tubarão é a mesma do triste cenário dos galhos secos nos manguezais que foram destruídos pelas empresas salineiras, deixando sem lar aves de mangue como garças e maçaricos. O sal é a principal fonte de renda da população do Rio Grande do Norte, além do petróleo extraído das plataformas terrestres da Petrobras, nas quais os chamados cavalos puxam óleo desde 3000 metros de profundidade.

Em Porto do Mangue, onde se concentram as paisagens mais bonitas do dia, o destaque é a seqüência de falésias de cores vermelha, amarela e alaranjada que beiram o mar azul até as praias de Ponta do Mel, São Cristóvão e Redonda. O melhor mirante para observá-las é o alto de cada morro, como no cemitério de São Cristóvão. Nesta região, famílias inteiras dormem em redes com a porta da casa aberta. “Só fecho quando o vento bate forte na boca da noite“, diz Cosme Olivar das Neves, 53 anos, que trabalha na salina artesanal de Grossos, cidade vizinha de Tibau, última parada do dia. “Mas o vento é bom. A gente nem precisa balançar a rede debaixo do cajueiro“, diz, feliz com o sossego de onde mora.

A extinção da lagosta. A entrada no Estado do Ceará, no quinto dia, é indicada por um mar mais verde, protegido por paredões avermelhados, como o de Barreira, Redondas (com “s“, diferente da Praia Redonda do dia anterior) e Ponta Grossa. De uma beleza surpreendente, as três praias ficam em isoladas vilas de pescadores cheias de jangadas de velas brancas. Todos os anos, no dia 15 de agosto, elas engrossam uma procissão de 150 barcos em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes. “Só a santa e o governo podem ajudar a melhorar nossa vida“, reclama o pescador João de Deus, 48 anos, morador de Redondas. Acostumado a viver da venda da lagosta, João de Deus tem sofrido com a escassez causada pela pesca predatória, que tem dizimado os filhotes. O volume dos pescados baixou de 20 quilos por mês, dez anos atrás, para 2 quilos.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Em Canoa Quebrada, ponto do próximo pernoite, a pesca deixou de ser o principal ganha-pão há duas décadas. O turismo explodiu de tal forma que a maioria dos 3000 moradores atuais veio de fora, atraída pela badalação que rondou a praia na década de 70, depois que a atriz Vera Fischer passou a freqüentá-la. Canoa continua bela, com dunas e falésias, mas cresceu demais.

O ícone da lua com a estrela, nascido do símbolo do islamismo e transformado em marca registrada de Canoa, também permanece em um paredão rochoso da praia – agora, porém, em meio a milhares de nomes rabiscados. Cosmopolita, a Canoa de hoje fala várias línguas, tem agitação noturna e costuma ter no céu parapentes coloridos, como o do suíço Jérôme Saunier, 37 anos, pioneiro do esporte no Brasil. Ele se mudou para cá há nove anos e montou uma academia. “Canoa Quebrada será sempre uma praia especial“, diz.

As falésias brancas que aparecem nos primeiros quilômetros do sexto dia, na rota final até Fortaleza, anunciam a aproximação da Barra de Sucatinga, que ficou popular há cinco meses por ter sido palco das gravações da série de televisão No Limite. Basta o bugue encostar na recém-batizada Praia dos Anjos para os filhos dos pescadores pararem de brincar com suas jangadinhas e oferecer passeios guiados. “O turismo está ajudando a vila a crescer“, anima-se Belarmino Torres, que está construindo em sua barraca de praia um museu com peças usadas pelo elenco, como estilingues e panelas.

Desviando-se das jangadas, dos campos de futebol e dos alagados formados durante a maré alta, os bugues seguem pela Praia das Fontes, com suas discretas nascentes despencando das falésias, e por Morro Branco, famosa pelo artesanato de areias coloridas. Depois da plácida paisagem dos bancos de areia em Águas Belas, a urbanidade se aproxima com a chegada à Praia de Porto das Dunas, em frente ao Beach Park. Hora de voltar à estrada, para que o descanso do sétimo dia seja desfrutado na Praia do Futuro, em Fortaleza. O bugue entra no asfalto da metrópole e recebe a primeira baforada de fumaça de caminhão. Como dizia Verinha, a da risada gostosa, tem louco pra tudo nesse mundo. Até para voltar à cidade, deixando lá atrás a vida mansa de sol e a brisa deliciosa da beira-mar nordestina.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Para quando você for:

 

Aos Bugues!

Qualquer pessoa pode viajar pelas praias alugando um bugue em uma das locadoras de Natal ou de Fortaleza. Para as aventuras mais longas, no entanto, é mais seguro e recomendável contratar o serviço de bugueiros profissionais, como Cláudio Chueiri (tel. 0_ _84/641-2019) e Marcelo Cossi (tel. 0_ _84/236-4217), ambos de Natal. A Top Buggy (tel. 0_ _84/219-2820) oferece os mesmos serviços em Natal, enquanto a HM (tel. 0_ _85/242-7799) faz o trajeto inverso ao nosso, desde Fortaleza.

Durma bem

Fora os pernoites em Natal e em Fortaleza, os outros quatro podem acontecer na cidade que o viajante quiser. Na hora de decidir onde parar para almoçar e para dormir, prefira as praias mais charmosas. No segundo dia, a melhor opção é São Miguel do Gostoso, na Pousada dos Ponteiros (foto do alto, tel. 0_ _84/984-5951). Galinhos, no terceiro dia, tem cinco pousadas. A mais simpática é a Chalés Oásis (foto do meio, tel. 0_ _84/9431-9672). Urbanas, as praias de Tibau (onde passamos a quarta noite, meio sem graça), Canoa Quebrada (quinta noite, www.canoaquebrada.com) e Fortaleza (sexta noite) têm muitos hotéis. Uma hora antes de Fortaleza, o Resort Praia das Fontes (foto debaixo, tel. 0_ _85/338-2122) é o melhor do roteiro Outras praias agradáveis para pernoitar são a Do Marco (RN), de Ponta do Mel (RN) e de Redondas (CE).

Pela terra do sol

Há sol no Nordeste em qualquer época do ano, mas as chuvas costumam aparecer entre março e junho. Planeje sua viagem usando as informações turísticas dos sites www.turismorn.com.br, do Rio Grande do Norte, e www.cearatour.com.br, do Ceará.

Outros toques

O bugue é aberto e o vento das praias pode desaparecer com seus óculos de sol, boné e guia de viagem. Proteja-se do vento, do sol e da areia que voa para dentro do carro. A água do mar também costuma molhar bagagens, câmera fotográfica…

Dica do autor

”Os sítios arqueológicos encontrados nas praias entre Touros e Galinhos merecem cuidado. Perto da Ponta dos Três Irmãos, os bugues desviam das pedras na beira de um morro e passam sobre uma concentração de conchas que se assemelha a um sambaqui. Evite rodar por ali para não atropelar as relíquias.”

Daniel Nunes Gonçalves

 
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Publicado em:
Os Caminhos da Terra

Edição:
104

Data:
Dezembro/2000

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