A empresária Solange Borges sonhava conhecer a Antártica. Guardava todas as reportagens que lia sobre o lugar, até que se deparou com uma especial, quatro anos atrás. Dizia que um cruzeiro ao continente gelado teria como convidado o paulistano Amyr Khan Klink, navegador solitário que tinha cruzado o Oceano Atlântico a remo, completado a volta ao mundo em um veleiro e se isolado, por sete meses e meio, em um barco travado na imensidão de gelo do extremo sul do planeta. Solange não teve dúvida: comprou o bilhete, encheu-se de casacos e embarcou. “Foi uma experiência única”, conta ela, com um currículo que inclui viagens de navio ao Ártico, à Itália e à Rússia. “Eu tinha ao meu lado um herói vivo, profundo conhecedor daquele universo, e pude escutar suas vivências emocionantes cara a cara.”

Viajar ciceroneado por especialistas tornou-se uma opção cada vez mais frequente para quem busca experimentações aprofundadas. Há chefs de cozinha que embarcam com seguidores gourmet para guiá-los por alguns dos melhores restaurantes do mundo e stylists que garantem aos clientes fashionistas acesso aos restritos ateliês de estilistas (conheça alguns casos nas páginas 68 e 69). A experiência é um pouco mais intensa no caso de quem, como Solange Borges, viaja com Amyr Klink, o mais intrépido explorador da história recente do Brasil, estrategista obstinado que ganha a vida a navegar em barcos e expedições que ele próprio desenvolve. “Com ele a bordo, fiquei mais segura quando as ondas atingiram os sete metros”, lembra Solange. “A proximidade com a figura de carne e osso gerou ainda mais admiração pelo ídolo.”

AVESSO A AVENTURAS FANTÁSTICAS

“Eu não busco experiências fantásticas”, dispara, rápido na escotilha, o explorador de quase 55 anos e 1,88 m que convida a equipe de #TAM Nas Nuvens# a entrar em seu veleiro Paratii em uma marina do Guarujá, litoral de São Paulo. “Prefiro as experiências reais”, explica, dizendo-se avesso a fantasias. Também repete, à medida que a conversa avança e o barco zarpa, os calafrios que sente quando o chamam de aventureiro. “Aventura é para gente inconsequente, que não sabe se vai voltar pra casa. Gosto de planejar minuciosamente minhas explorações”, conta. Seu cuidado ímpar com as palavras deixa claro: estamos diante de um giramundo de berço nobre, um descendente de uma abastada família de pai libanês e mãe sueca que estudou economia, administração e literatura francesa, fala quatro línguas e já vendeu mais de 1 milhão de cópias de seus cinco livros best-sellers – entre eles #Cem Dias entre Céu e Mar# e #Paratii – Entre Dois Polos#.

Mais que tudo, Amyr é um #bon vivant# que trabalha se divertindo e que entende daquilo que fala – e só isso já seria motivo para desfrutar de sua companhia em uma roda de amigos tomando um bom vinho, prazeres que ele adora. Daí o sucesso de cruzeiros antárticos como o que Solange participou. Nos últimos cinco anos, ele foi o palestrante convidado de navios estrangeiros como o norueguês Nordnorje, por quatro vezes, e o francês Le Diamant, em uma quinta viagem. Ainda não sabe quando sai o próximo cruzeiro do gênero. No futuro próximo, no entanto, o próprio Amyr pretende comandar expedições comerciais à Antártica em um barco que ele está projetando em seu estaleiro em Itupeva, interior de São Paulo. Trata-se do P4, um catamarã de 165 pés (50,3 m) e que não custará menos de 4 milhões de dólares.

EM BREVE NOS CINEMAS

Apesar da timidez, o comandante que maneja o leme do Paratii pelas águas de Guarujá e Santos fala de seus mil planos com um entusiasmo quase infantil. Parece mais o menino que passou a infância em Paraty, apaixonado por canoas, remos e histórias de pescadores, do que o experiente homem do mar que acumula mais de 30 viagens à Antártica entre suas 300 mil milhas náuticas navegadas nos últimos 25 anos, mais que a distância da Terra à Lua. “O sucesso é algo perigoso, que pode te deixar ancorado a tudo aquilo que você já fez”, filosofa. “Por isso, gosto de inventar desafios que exijam que eu busque novas tecnologias para projetos com mais simplicidade e autonomia”, continua. A facilidade para se expressar foi adquirida, em parte, graças às cerca de cem palestras que faz, anualmente, Brasil afora. Sócio-fundador do Museu do Mar, com mais de 60 embarcações em São Francisco do Sul, em Santa Catarina, e prestes a ser o personagem inspirador do novo longa-metragem do diretor de cinema Breno Silveira, de #Dois Filhos de Francisco#, Amyr não para, e parece ter uma caixa registradora que vive a tilintar. (Em tempo, e cá entre nós: o filme focará a travessia do Atlântico a remo, e a roteirista do longa, que pesquisa a rotina de Klink sem descanso há quase um ano, acompanhou o passeio da #TAM Nas Nuvens# pelo mar observando cada gesto do herói.)

FAMÍLIA ANTÁRTICA

Depois de ganhar fama mundial como explorador solitário e de render-se a uma viagem tripulada para dar a volta pelo globo em latitudes ainda mais baixas e arriscadas, Amyr Klink tem passado os últimos anos com um cotidiano familiar. Casado com a promotora de eventos Marina Bandeira e pai de três meninas – Tamara e Laura, gêmeas bivitelinas de 13 anos, e Marina, a caçula, de 10 –, Amyr passou a levar a trupe em várias de suas viagens anuais à Antártica. Não por acaso, foram as meninas que passaram a ministrar palestras sobre icebergs e pinguins para crianças de várias escolas, como faz o pai, e lançam em 7 de agosto, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o livro #Férias na Antártica#. A escudeira Marina também enveredou pelo mundo dos livros. Prepara os livros #Antártica#, de fotos, e #Antártica, Uma Reportagem Definitiva#, sobre suas dez viagens acompanhando o marido. Recentemente, o lobo do mar voltou a atracar com frequência em Paraty, a cidade litorânea fluminense que inspirou sua paixão pelo universo náutico. Foi o lugar que originou o batismo de seus dois barcos principais – Paratii, hoje arrendado para o empresário Igor Alexandre (em troca da missão de “fazer o barco rodar”), e Paratii 2, atualmente ancorado na Antártica para uma invernagem como a que Amyr fez em 1989, agora tripulada pela família do skipper e braço direito Flávio Fontes.

“O projeto que não sai da minha cabeça no momento é o do Iate Clube de Paraty”, confessa. Recém-criada, a novidade da cidade tem como sede a Ilha da Bexiga, bela propriedade dos Klink bem diante do cenário bucólico da igrejinha de Paraty, no continente. Alternativa às oito marinas locais, o local tem como foco a hospitalidade e o intercâmbio. “Quero fomentar o verdadeiro espírito náutico, para que os navegadores estrangeiros se sintam bem-recebidos no mais bonito iate clube das Américas”, planeja, enquanto amarra o barco de volta à poita da marina do Guarujá, no fim do passeio. Não mais que 200 associados serão aceitos na seleta confraria de sócios de Amyr Klink em Paraty, portanto os interessados devem desenrolar as velas. Afinal, esta é mais uma boa chance de interagir, de perto, com o navegador brasileiro que virou herói.

 

COM PASSAGEIROS NA ANTÁRTICA

Por cinco vezes Amyr Klink atuou como palestrante convidado em cruzeiros com barcos estrangeiros no continente gelado. “Ele é o professor particular que todo turista da Antártica sonha ter”, testemunha o analista de sistemas Rogério Tomazela, que passou 22 dias de 2007 embarcado com Amyr no navio norueguês MS Nordnorje. A advogada Karla Battistella, que integrava o time de nove brasileiros da viagem de 2008, concorda: “Ter alguém assim a bordo é garantia de conhecimento aprofundado, ideal para quem não se contenta em voltar de viagem só com fotos, compras e ingressos de museus”.

 

COM NAVEGADORES EM PARATY

Fundado por Amyr Klink e 12 sócios no fim de maio, e com previsão de inauguração no próximo verão (informações pelo telefone 11/5533-7611), o primeiro iate clube de Paraty nasce com a intenção de ser a principal base para navegadores estrangeiros no Brasil, além de sede para eventos náuticos internacionais e possivelmente do Museu do Mar que Amyr sonha montar na cidade. Até 60 barcos grandes, acima de 80 pés (24,8 m), poderão atracar nas duas linhas de marinas flutuantes, patenteadas no Brasil pelo próprio Amyr e mais ecológicas que as de concreto convencionais. O calado de oito metros vai permitir o transfer de navios de cruzeiro.

 

DESCOBRIDOR DOS SETE MARES

Desde quando comprou sua primeira canoa, Max, aos dez anos na cidade de Paraty, Amyr Klink só viu aumentar sua paixão por barcos, pelo mar e pelas grandes explorações náuticas. Depois de uma série de viagens também por terra e ar na juventude, ele se entregou à vela. Hoje coleciona, além de 30 canoas, 60 remos, 1.500 livros de viagem e 1.500 mapas, uma série de feitos que o transformaram no maior navegador brasileiro da história. A Antártica, por exemplo, virou a terceira casa da família Klink – a primeira é São Paulo, onde ficam sua casa e escritório, e a segunda, Paraty. Conheça algumas de suas principais realizações pelos oceanos do planeta.

 

TRAVESSIA DO ATLÂNTICO A REMO

Em 1984, anônimo aos 29 anos, foi o primeiro mortal a cruzar sozinho o Oceano Atlântico remando, por cem dias e 6,8 mil quilômetros, desde a Namíbia, na costa da África, até a praia da Espera, na Bahia, no barco I.A.T., de 19 pés (5,9 m).

 

INVERNAGEM ANTÁRTICA E IDA AO ÁRTICO

A bordo do Paratii, de 50 pés (15,3 m) e 900 mil dólares, estreou como velejador em 1989 seguindo sozinho à Antártica e lá passando o inverno. Quando o gelo do entorno derreteu, navegou o Atlântico de sul a norte até o Ártico. A epopeia durou dois anos.

 

DUAS VOLTAS AO MUNDO

Inicialmente, em 1998, Amyr fez a primeira circunavegação da Terra em solitário a bordo do Paratii. A saga em altas latitudes, entre 50 e 65° S, durou 88 dias. Mais tarde, em 2003, repetiu o feito com o Paratii 2 e tripulação de cinco homens ao longo de 76 dias – e latitudes ainda mais arriscadas: 60 a 65° S.

 

30 VEZES NA ANTÁRTICA

A bordo especialmente do Paratii 2, sua obra-prima de 100 pés (30,5 m) e 5,5 milhões de dólares, Amyr ruma quase todo ano com a mulher e as três filhas para a Antártica. Ele já esteve ali mais de 30 vezes; Marina viajou em dez oportunidades e as meninas, em cinco.

 

2 MIL PALESTRAS

Mais de 500 mil brasileiros, executivos em sua maioria, já assistiram às cerca de cem palestras que Amyr Klink faz anualmente. Uma hora de discurso sobre tempestades assustadoras, noites em claro e riscos de morte custa, no mínimo, 4 mil dólares.

 
Publicado em:
TAM NAS NUVENS

Edição:
Ano 3, número 31

Data:
Julho 2010

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