Ninguém chega sem ser anunciado ao casebre de seu Miro. Basta se aproximar para que oito cachorros e cinco gansos abram o berreiro num escarcéu danado. “Podem se achegar”, avisa do alto da trilha o senhor de 61 anos, sorriso estampado pela alegria dessas visitas raras. O gaúcho surge de uma casa amarela secular em meio à densa Mata Atlântica. Chimarrão na mão, é um voluntário isolado nesse cafundó no alto do Morro do Ribeirão, de 540 metros, o maior da Ilha de Santa Catarina. Passa dias ali, cuidando da terra, mirando o horizonte da mata com o olhar misterioso típico dos ilhéus, acostumados a ver coisa nenhuma onde o mar encontra o céu. Seu Valmiro dos Santos convida para entrar, espanta uma galinha de cima da pia, observa uma revoada de tucanos-do-bico-verde, puxa prosa. “Mudei para cá para fugir do barulho da cidade”, conta. Forasteiro como tantos em Florianópolis, seu Miro só nessas situações vê gente. Ou quando caminha até o Sertão para beber a pinguinha do seu Acari e olhar o horizonte de algumas das 100 praias da ilha, com o centro e a Ponte Hercílio Luz bem ao fundo. Não parece, mas o tranqüilo paraíso verde onde seu Miro se esconde está bem no meio de uma capital com 300 000 habitantes.

Seu Miro não é o único que vive ilhado dentro de uma ilha. Os 79 moradores do Sertão do Peri também moram afastados, num cenário rural de poucas casas, distantes entre si. Há vários grupos assim, com natureza e cultura preservadas, em Florianópolis, a capital do Estado de Santa Catarina, que ocupa toda a ilha de mesmo nome e um pedaço do continente. Gente que nunca ouviu falar do tenista Gustavo Kuerten, a maior estrela entre os esportistas famosos da cidade. Apesar de ser um grande pólo turístico desde a década de 60, a ilha guardou esses segredos pelo fato de estarem em pontos de difícil acesso. Chegar ao Sertão, só por uma estrada de terra ruim ou pela trilha da Cachoeira do Peri, que parte da Lagoa do Peri, o maior reservatório de água potável da cidade, com 5 km2. Bem diferente das urbanizadas praias de Canasvieiras e Ingleses, que atraem uma multidão de argentinos ao norte da ilha durante o verão, a região do Parque Municipal da Lagoa do Peri é um desses fascinantes redutos quase intocados da ilha.

Esguia, com 53 quilômetros de extensão por 18 de largura, a Ilha de Santa Catarina é um privilegiado ponto do Brasil, onde o urbano convive com os rústicos recantos caipiras e caiçaras, entre praias, montanhas cobertas de Mata Atlântica, mais de dez ilhas, duas grandes lagoas e quilômetros de dunas, restingas e manguezais. Mesmo sendo parte da quarta cidade que mais recebe visitantes no país (são 2 milhões por ano), essa ilha de geografia exuberante é morada de pescadores e artesãs de renda de bilro. “És manezinho da ilha?”, pergunta seu Acari Romalino Siqueira, 43 anos, que cuida do bar do Sertão, falando com os “esses” puxados do típico sotaque português. Manezinho da ilha é como são chamados os florianopolitanos locais. A palavra foi criada pelos colonos alemães que habitavam o interior do Estado no século XVIII para definir os muitos Manuel e Joaquim da colônia de portugueses, vindos dos Açores, que viviam no litoral.

Os manezinhos dispõem de uma invejável qualidade de vida. Podem se dar ao luxo de correr diariamente na Avenida Beira-Mar, similar à Avenida Atlântica da Copacabana carioca, ou escalar a rocha do Morro da Cruz, com 285 metros de altura e uma bela vista aérea. Quem vem de fora pode conhecer um pouco da rotina provinciana e das maravilhas naturais da Ilha de Santa Catarina de carro, beirando todas as praias em dois dias. Ou a pé, como fazem os trekkers e os corredores da maratona Volta à Ilha, percorrendo praias, trilhas na mata, costões e estradas à beira-mar em até uma semana. O lado selvagem, no entanto, só é desbravado por trilhas. A maior parte segue para as praias desertas e vilas pacatas como a de Tapera, no sul. Para evitar que até elas recebam muita gente nos feriados, os moradores fogem mesmo é para o interior. Caminham para as lagoas e rumo a mirantes de onde se vê o contraste dos azuis das lagoas, do mar e do céu. Quanto mais alto o ponto de onde se vê a ilha, mais surpreendente ela parece.

A maior das lagoas, a da Conceição, encravada bem no coração da ilha, torna-se deslumbrante quando avistada do alto das trilhas que levam à Costa da Lagoa, comunidade tão ou mais isolada que o Sertão do Peri. Trata-se de um gigantesco espelho d’água de 20 km2 ligado ao mar por um canal. A trilha que parte do bairro de Ratones permite que se veja o Rio Ratones imperar como o maior da ilha, sustentando o manguezal da Estação Ecológica de Carijós, onde ainda vivem lontras e jacarés-de-papo-amarelo. Em outro caminho para a Costa da Lagoa, partindo da Estrada Geral do Canto das Araçás, cruza-se com engenhos de farinha de mandioca e de cana-de-açúcar, que foram a base da economia desses ilhéus desde a colonização até o início do século. “Os açorianos letrados habitavam o centro à beira-mar, enquanto os analfabetos seguiram para as roças e engenhos do interior”, explica o sociólogo Nereu do Vale Pereira, 71 anos, estudioso da cultura açoriana que cuida do Ecomuseu do Ribeirão da Ilha.

Dois povoados situados no lado oeste, voltado para o continente, carregam de forma mais intensa a influência dos Açores. Tanto Santo Antônio de Lisboa, na Baía Norte, como Ribeirão da Ilha, na Baía Sul, ambos com praias sem ondas, guardam casas e igrejas construídas no estilo português: as paredes são conjugadas, as casas que pertenceram às famílias de posses ainda exibem suas eiras e beiras, do jeitinho que faziam os primeiros 4000 açorianos que aqui chegaram, em 1746. Apesar de ter sido colonizada pela população do arquipélago dos Açores, a Ilha de Santa Catarina tem na sua origem a mesma variedade de povos que se percebe hoje. O primeiro branco que deparou com os habitantes índios da tribo carijó foi o espanhol Juan Dias de Solis, também fundador de Buenos Aires, em 1514. Por volta de 1536, o navegador veneziano Sebastião Caboto deu o nome à ilha – uns dizem que em homenagem à Virgem Martir de Alexandria, outros acreditam que para agradar à sua esposa, Catarina. Só em 1675 o bandeirante português Francisco Dias Velho fundou o povoado de Nossa Senhora do Desterro, que teria seu nome trocado para Florianópolis em 1895, em homenagem ao marechal alagoano Floriano Peixoto, ex-presidente da Primeira República brasileira.

Os estrangeiros continuam por ali. Muitos adoram a pequena enseada da Galheta, freqüentada por naturistas e acessível por trilha desde a Praia Mole. Outros preferem o Costão do Santinho, invadido por um condomínio gigantesco, mas recanto de dunas, belos costões e inscrições dos carijós nas pedras. Os surfistas, porém, vindos de todo o mundo, escolheram as ondas da Joaquina, da Praia Mole e da Armação, todas no mar aberto do leste, como passagem obrigatória. Com poucas casas, elas mantêm a natureza ainda bem preservada: Joaquina tem dunas procuradas por praticantes de surfe na areia, Praia Mole é protegida por montanhas verdes em todos os lados, e grandes rochas negras beiram a Armação. Fora de temporada, quando pertencem apenas aos nativos praticantes de parapente, mountain-bike e escalada em rocha, elas preservam o que se convencionou chamar de “magia” da ilha. Também nascidas nos Açores, as lendas falam de bruxas, destinos cruzados e da estranha energia que convida as pessoas a voltar um dia para suas praias — às vezes para sempre.

A Armação ganhou esse nome por ter sido, desde o século passado até a primeira metade deste, um ponto de aprisionamento e matança de baleias. Até hoje, em todas as primaveras, as baleias franca migram da Antártida para se acasalar, reproduzir e amamentar filhotes no litoral de Santa Catarina. A Armação ainda é um dos melhores pontos para observá-las, além das praias Mole, do Campeche e de Moçambique – esta última é a mais extensa da ilha, com 11,5 quilômetros, dentro do Parque Florestal do Rio Vermelho. Deserta, Moçambique é morada de gaivotões, fragatas e atobás, além de escala de aves migrantes como as batuíras e os gaviões-tesoura. “Cerca de 270 espécies, entre residentes e migratórias, foram registradas aqui”, atesta o biólogo Andrei Roos, 24 anos, que estuda esses pássaros.

Os pingüins também costumam aportar na costa leste. Quando o mar das Malvinas esfria demais, eles sobem para o litoral brasileiro, onde a água é mais quente mesmo no inverno, época em que eles costumam chegar. Vítimas da poluição dos mares, esses animais aportam na ilha com as penas cobertas de óleo despejado por navios. Resultado: as penas endurecem, permitindo que a água gelada entre em pequenos vincos e resfrie seu corpo. “Eles param na areia cansados e com frio, e precisam ser limpos para que possam prosseguir viagem”, afirma o sargento Marcelo Duarte, 26 anos. Ele é um dos homens da Polícia Ambiental do Parque Florestal do Rio Vermelho que desenvolve o trabalho de recuperação de animais machucados ou apreendidos em cativeiro. No ano passado, o grupo do sargento Marcelo resgatou 253 pingüins, cuidou deles e reintroduziu no mar, próximo à Ilha de Xavier, os 171 que sobreviveram.

As ilhas ao redor da grande Ilha de Santa Catarina são um espetáculo à parte, motivo para muitas viagens. A Ilha do Arvoredo ostenta a fama de perfeito ponto para mergulho. Anhatomirim, ao norte, é morada de golfinhos. Ao sul, a Ilha de Moleques do Sul guarda um gigantesco ninhal de atobás e fragatas. Campeche, em frente da praia de mesmo nome, tem a maior quantidade de inscrições rupestres do litoral sulista e uma prainha solitária e convidativa.

Bem diante das ilhas Três Irmãs, no extremo sul da Ilha de Santa Catarina, estão as praias mais cobiçadas e inexploradas. A Lagoinha do Leste, tida como a mais bonita da ilha, é acessível pela vila de pescadores de Pântano do Sul, onde ainda podem ser encontrados lobos-marinhos, ou pelo costão desde a Praia de Matadeiro, ao lado da Armação. Vista do alto da montanha, quando suas areias claras se descortinam depois da subida de uma caminhada, ela parece a mais bela do mundo. Lagoinha fica numa enseada de 1 quilômetro protegida por costões laterais. Não há ninguém morando por perto, e a lagoinha de águas quentes e escuras, formada por um riacho que desce do morro, tem apenas a natureza como companhia.

A série de praias isoladas segue a partir daí, sempre com acesso difícil. De uma estrada de terra que parte de Pântano do Sul chega-se a Solidão, que tem uma cachoeira e uma piscina natural. Desse ponto caminha-se por um dos costões mais entrecortados da ilha até a Praia do Saquinho, onde há uma comunidade de pescadores, com apenas vinte casas, que ainda não têm energia elétrica. Gente que não vê televisão, que não assiste aos jogos do manezinho Gustavo Kuerten.Com 5 quilômetros de extensão e areias brancas, Saquinho é vizinha de Naufragados, um lugar de ondas fortes que em 1753 causaram o afundamento de duas embarcações que traziam 250 açorianos. Apenas 77 náufragos sobreviveram, e parte deles passou a viver ali, no ponto mais ao sul da ilha. Construíram um engenho, adaptaram-se à roça e à pesca e deram início a mais um grupo de manezinhos que viveriam uma relação de amor com a Ilha de Santa Catarina. Até hoje há uma pequena comunidade de ilhéus em Naufragados. Vivem em paz com a natureza, ao som do chorinho do mar e mantendo o hábito de olhar à toa para o horizonte, numa espécie de encantamento que só quem vive em uma ilha como a de Santa Catarina consegue entender.

MATA NATIVA

Maior reservatório de água potável da cidade, a Lagoa do Peri é protegida por um raro trecho da Mata Atlântica primária que resta na ilha: abrigo da cachoeira e morada da isolada comunidade do Sertão do Peri.

DIA DE PESCA

Homens da vila de Pântano do Sul arrastam rede em mais um dia de trabalho: dessa praia de pescadores, um dos poucos lugares onde ainda existem lobos-marinhos, partem trilhas para as praias desertas do sul.

DUNAS AO SOL

Na Praia da Joaquina, montes de areia erguem-se entre o mar e as restingas: ponto preferido pelos surfistas do mar e das dunas quentes.

Para ir mais longe

Florianópolis das 100 Praias, fotos e informações de todo o litoral, feitas pelo professor Nereu do Vale Pereira, Editora Mares do Sul, encontrado no Ecomuseu do Ribeirão da Ilha (tel. 0_ _48/237-8148).

Uma Cidade numa Ilha, relatório sobre os problemas ambientais da Ilha de Santa Catarina, editado pelo Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA).

 

Box:

A bela ameaçada

Por ter uma natureza privilegiada, a Ilha de Santa Catarina é alvo de várias agressões. O inimigo número 1 sempre foi a urbanização, responsável pela construção de condomínios e hotéis nas praias mais paradisíacas, principalmente as do norte. As áreas rosadas do mapa, para se ter uma idéia, representam esses núcleos urbanos. Várias reservas foram criadas nos espaços verdes, mas nem sempre a lei que proíbe construções é respeitada. Como se não bastasse o impacto que causou a implantação de um aterro na Baía Norte, para a construção de uma estrada, também a Baía Sul está sendo aterrada, para que uma rodovia ligue o centro ao aeroporto. Há planos ainda de acentuar a urbanização da Praia do Campeche, construir um autódromo, um campo de golfe e de aumentar o nível da Lagoa do Peri para que ela seja a grande fonte de água potável da ilha. A natureza sofre calada, e o único protesto vem das ONGs ecológicas.

 

GUIA DA TERRA

 

Como chegar

Acessível pela BR-101, Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina, fica a 300 quilômetros de Curitiba e a 476 quilômetros de Porto Alegre. Quem não for de carro pode chegar às praias em ônibus que partem do centro, próximo ao Mercado Público. As trilhas são bem marcadas, mas é sempre bom ter a companhia de alguém da região. O site www.guiafloripa.com.br detalha as catorze principais trilhas, com mapas e link para a página da Recriarte (tel. 0_ _ 48/962-9632), agência de ecoturismo que programa até caminhadas na chuva e durante a noite. Outra agência é a Paz na Terra (tel. 0_ _ 48/222-7075).

Onde ficar

Há mais de sessenta pousadas, a maioria espalhada pelas praias — muitas delas citadas no site acima. Tanto o guia digital www.gdsc.com.br como a Secretaria de Turismo (0_ _ 48/244-5822) dão informações turísticas. Para conhecer a cultura açoriana, melhor se hospedar em Santo Antônio de Lisboa (foto) ou no Ribeirão da Ilha. A Pousada Caminho dos Açores (tel. 0_ _48/235-1363) é uma boa sugestão em Santo Antônio de Lisboa, enquanto no Ribeirão a Pousada e Restaurante do Museu (tel. 0_ _ 48/237-8148) se destaca por servir pratos típicos e ficar junto ao Ecomuseu. Na beira da Lagoa da Conceição, existem os charmosos Chalés Tranquilli (0_ _48/232-6311) e os Chalés do Canto (0_ _48/232-0471). Na Lagoa do Peri, destaca-se a agradável Pousada Alémdomar (0_ _48/237-5600). Há vários campings e dois Albergues da Juventude, na Praia de Canasvieiras e no Centro (res. tel. 0_ _ 11/258-0388).

Quando ir

Abril e maio são os melhores meses, pois quase não chove e as trilhas estão floridas. As praias ficam mais quentes entre dezembro e março, mas também mais cheias, principalmente no Carnaval. Evite os meses de agosto e setembro: chove demais. É em setembro, no entanto, que as baleias franca costumam aparecer.

Dica do autor

“Quando estiver em Pântano do Sul, de onde parte a trilha para a Lagoinha, aproveite para experimentar a comida do Arante Bar. O restaurante fica de frente para os barquinhos de pesca da praia, e serve pratos do mar incríveis.”

Daniel Nunes Gonçalves

 
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Publicado em:
Revista Os Caminhos da Terra

Edição:
88

Data:
Agosto de 1999

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