Você pousa na cidade mais linda da Califórnia, aluga um carro elétrico e se hospeda em um green hotel. Deixa as malas, toma um bonde elétrico para comer em um restaurante de comida sem agrotóxicos e dali passeia de bike pela ciclovia até uma fazenda urbana. O lanche da tarde pode ser cachorro-quente orgânico, seguido de umas comprinhas de roupas feitas com garrafas pet recicladas. Até a happy hour pode ser em um barzinho que serve legumes plantados no teto do prédio vizinho, com direito a encerrar a noite com um jantar vegetariano refinado. Se sobrar comida no prato, ela será transformada em adubo pela própria prefeitura, não se preocupe. Seu único cuidado na volta ao hotel é conectar um fio do capô do carro a uma tomada elétrica qualquer, como se recarregasse o telefone celular, para que tenha bateria suficiente para visitar uma vinícola nos arredores – de produção ecológica, naturalmente.

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Acredite. Isto não é uma projeção futurista ecochata, mas a reprodução resumida da rotina dos cinco dias que vivemos em San Francisco, em setembro. Fomos conferir por que ela acaba de ser reconhecida como a cidade mais verde das Américas pelo Green Index, um estudo desenvolvido por especialistas da Economist Intelligence Unit e patrocinado pela Siemens. Sua liderança ambiental vem de longa data: em 1892, um sujeito chamado John Muir fundou ali o Sierra Club, que viria a se tornar a mais longeva organização conservacionista dos Estados Unidos, hoje com 1,4 milhão de associados. E John, o pai do Movimento Verde, virou o nome de batismo da Muir Woods, uma floresta de sequoias-gigantes nas redondezas. San Francisco sempre esteve na vanguarda. Na região nasceram a Organização das Nações Unidas (em 1945) e os movimentos beat (nos anos 50), hippie (na década seguinte) e gay (nos 70), entre outras iniciativas que mudaram o mundo, como a produção daqueles computadores com logotipo em forma de maçã, conhece?

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FLORES NA CABEÇA

Logo na estrada do aeroporto, o rádio do carro dava o clima. “If you are going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair”, cantava Scott McKenzie a letra de John Phillips, do The Mamas & The Papas. Bote aí no YouTube para lembrar: este é aquele famoso convite para que viajantes a caminho da cidade ostentassem flores no cabelo, e se transformou no hino de paz e amor que embalou 25.000 hippies nos gramados verdinhos do Golden Gate Park durante o festival de Monterey, de 1967 – dois anos antes do mítico Woodstock. Quase 45 anos depois, bastou darmos aquela voltinha de reconhecimento pelas ruas para perceber as pessoas se reunindo no parque que leva o nome da ponte mais famosa da cidade, assim como nas outras áreas verdes que cobrem 17% do seu território. Em uma das praças mais cênicas, a Alamo Square, encontramos amigas com crianças e cachorros, casais de namorados e até os integrantes de uma banda, a Chamberlin, gravando seu videoclipe. “Adoramos esta cidade, seu clima, sua paisagem”, contou Eric Maier, um dos integrantes do grupo de Vermont.

Com uma geografia privilegiada por beirar o Oceano Pacífico de um lado e a baía de outro, San Francisco convida a explorações a pé ou de bike. Deixamos nosso Leaf recarregando na garagem do hotel, o W, e aproveitamos a oferta gratuita de bicicletas. Redes como Carlton, Intercontinental e Hilton, além do pioneiro The Orchard, integram um seleto grupo de hotéis verdes. As placas de Green Business que ostentam na fachada indicam que suas práticas vão além de quartos cujas luzes se apagam na ausência dos hóspedes: as soluções se estendem até o uso de tecidos reciclados nas roupas de cama e de produtos biodegradáveis na faxina. Os disputados certificados Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), dados aos prédios mais sustentáveis do planeta, estão em mais de 130 edificações do skyline da metrópole, como no AT&T Park – o estádio do time de beisebol Giants, iluminado por mais de 500 painéis solares.

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Escolhemos as ciclovias mais planas, que beiram a baía entre as duas grandes pontes, partindo da Bay Bridge, passando diante do píer turístico Fisherman’s Wharf e seguindo até a Golden Gate Bridge. Cruzar os 2.700 metros da gigante vermelha que se tornou o maior cartão-postal da cidade não é exatamente o passeio mais gostoso durante o verão, tamanha a quantidade de pedestres, mas o downhill que espera os bikers do lado de lá, a caminho de Sausalito, no condado de Marin, encerra o trajeto com adrenalina. Antes de embarcar na balsa de volta para San Francisco, vale a pena curtir o panorama e bater perna entre as lojas e os bares da cidadezinha.

YERBA BUENA

Se o plano para o dia seguinte for conhecer o zigue-zague da Lombard Street, as ladeiras de Chinatown ou a ilha de Alcatraz, é menos cansativo deixar a bike pra lá. Espalhada em um sobe-e-desce de 50 colinas, San Francisco usa desde 1873 os chamados cable cars, que hoje somam 40 carros puxados por cabos de aço subterrâneos. Os bondinhos amados pelos turistas são as vedetes do mais vasto sistema de transporte público dos Estados Unidos – maior até que o de Nova York. Somam-se a eles 26 trólebus históricos chamados de street cars e outros 333 ônibus elétricos, todos impulsionados por cabos suspensos, além do metrô e dos 86 ônibus híbridos, que utilizam tanto diesel quanto eletricidade. Assim, metade dos coletivos locais não emite carbono algum no ar, algo fundamental no trânsito de uma cidade de 800.000 habitantes. O número é mil vezes maior que o da vila de Yerba Buena quando ela deixou de pertencer ao México e foi incorporada pelos EUA com o nome do santo italiano São Francisco de Assis, em 1847.

Recarregador de celulares de fazenda urbana (SameSame Photo)

A miscigenação pacífica de americanos, latinos – mexicanos, na maioria – e chineses está tão incorporada à rotina local que muitas placas incluem as três línguas: inglês, espanhol e mandarim. É o caso dos informativos sobre como separar o lixo, visto que a bem-sucedida coleta seletiva da cidade, implementada nos anos 70, obriga os moradores – sob pena de multa – a colocar todos os recicláveis juntos no cesto azul, lixo imprestável no preto e, na lata verde, orgânicos. “Restos de comida e de podas de árvores são transformados em adubo e vendidos a 200 vinícolas”, explica Robert Reed, relações-públicas da Recology, empresa privada que coleta e dá um fim sustentável aos dejetos urbanos. Na pesquisa The Green Index, San Francisco se destacou especialmente por reciclar 77% do seu lixo. Miami só trata 18% e São Paulo cuida de apenas 1%.

Mandatória desde 2010, a compostagem foi bem-aceita. “Passei a criar minhocas em casa para que minhas cascas de legumes e frutas servissem de alimento para elas”, contou Leora Sharone, vendedora que conhecemos no Heart of the City Farmers’ Market, feira de rua que acontece às quartas e aos domingos na frente do City Hall, o prédio da prefeitura (ficam diante dele, por sinal, alguns dos 30 locais públicos para recarregar baterias de carros elétricos como o nosso Nissan Leaf). Em outra tarde, ao visitar a Hayes Valley Farm, uma fazenda urbana, nos deparamos com um grupo de jovens levando em carrinhos de pedreiro galões de lixo repletos de sobras de um restaurante da vizinhança para compostagem. “Acreditamos que podemos ser um exemplo para outros bairros”, explicou um dos 100 voluntários que trabalham semanalmente ali, Jay Rosenberg. A fazendinha faz seu próprio mel, fornece a produção da horta orgânica a pacientes de câncer do hospital local, tem um recarregador de baterias de celular movido a energia solar e se propõe a ensinar os princípios da permacultura, um método de planejamento de assentamentos humanos sustentáveis.

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PATINETE ELÉTRICO

O engajamento para educar os sanfranciscanos é o propulsor também da California Academy of Sciences, no coração do Golden Gate Park. No terraço, chama a atenção o jardim em formato de abóbada, onde janelas circulares permitem a entrada de sol e a circulação de ar. Sob esse cenário lunar fica uma estufa com espécies amazônicas que, por sua vez, está um andar acima de um aquário impressionante. Ali, grupos de crianças podem entrevistar o mergulhador enquanto ele está submerso. Fora da academia, fileiras de pessoas são vistas passeando em segway, aquele patinete elétrico. E a poucas quadras do parque está a portinha colorida do Underdog, onde cachorro-quente não é sinônimo de junk food: as salsichas vêm de gado criado sem rações químicas, e são servidas em pães caseiros frescos com mostarda e ketchup orgânicos.

Se quiser quebrar preconceitos e matar a curiosidade, o Underdog serve bolo gelado de cannabis sativa – sim, a maconha. A pioneira San Francisco liberou o consumo comedido do cigarro da planta para pacientes com receitas médicas apropriadas. Não doentes têm acesso apenas a processados feitos a partir da erva, como roupas, sabonetes e energéticos vendidos legalmente em várias lojas temáticas da Haight Street. Ali, na altura do cruzamento com a Ashbury Street, o antigo reduto hippie abriga mercadinhos naturebas, como o Haight Street Market. Quando o assunto é sustentabilidade, porém, nenhuma mercearia da cidade é mais respeitada que a Rainbow Grocery, nascida em 1975 como uma cooperativa de seguidores vegetarianos do guru indiano Maharaj Ji. Como foi inevitável que a cooperativa abrisse suas gôndolas para industrializados, o guru deixou o negócio. Restaram os 237 donos-funcionários, entre eles Mary Murtagh, uma das pioneiras. “Muita coisa aqui é vendida a granel para minimizar o consumo de embalagens, do arroz à farinha, das ervas aos diferentes tipos de pasta”, diz Mary. Em tempo: San Francisco foi vanguarda também no banimento completo do uso de sacolas plásticas, em 2007.

Entrada de fazenda urbana (SameSame Photo)

TIROLESA SOBRE A FEIRA

Foi outro grupo espiritual da região, o Zen Center, que deu origem ao restaurante Greens, primeiro vegetariano da cidade, aberto em 1979. Bem localizado, em um galpão envidraçado diante da marina de Fort Mason, uma base militar transformada em centro cultural, o estabelecimento até hoje serve os monges budistas com ingredientes produzidos em fazenda própria. A lista de restaurantes verdes, não necessariamente vegetarianos, é vasta. Todos se abastecem com pequenos produtores e cobram preços quase 10% mais caros que os restaurantes comuns. Mas compensa. Recomendo o Bar Jones, ao lado da fazenda Hayes, animado na happy hour; o Neptunes, no Fisherman’s Wharf, que compra peixes de pescadores artesanais; o Farmer Brown, com um brunch regado a soul music ao vivo nos fins de semana; e o chique Millenium, o restaurante do Hotel California, que não é aquele da música, mas vai fazer você sair de lá cantarolando de tão boa que é a comida! Ali, repare na carta de vinhos: S aponta rótulos de produção sustentável, pouco agressiva ao meio ambiente; O indica produção orgânica, sem uso de agrotóxicos; e B é a inicial de biodinâmico, um termo que explica que a casa segue princípios da antroposofia, como rotação de cultivos e plantio conforme as fases da lua.

Você pode planejar bons dias ao ar livre dando uma esticada até vinícolas sustentáveis dos vales de Napa e Sonoma. Se estiver com um carro elétrico como o nosso, não se esqueça de recarregá-lo antes, pois as tomadas elétricas públicas ainda são escassas. Ou renda-se à paixão californiana por programas ao ar livre praticando, durante o verão, a tirolesa da Ziptrek Ecotours sobre a feira de artesanato diante do Ferry Building. Depois, cruze a rua e se perca entre as barraquinhas de frutas, legumes e verduras do Ferry Building Market, que acontece às terças, às quintas e aos sábados. Os vendedores puxam conversa, oferecem delícias para degustação, sempre tem algum maluco com roupa divertida. Foi ali que conhecemos Joseph Minocchi, um produtor de ervas e de flores de Sonoma. “San Francisco pode estar orgulhosa de ser considerada a mais verde da América, mas tem muita coisa para melhorar”, contestou, lembrando que as tecnologias sustentáveis ainda oneram os bolsos dos produtores por ser mais cara. Mas Joseph estava tranquilo por fazer a sua parte. Afinal, é um californiano típico, meio “ripongo”. E sabe o que ele carrega no chapéu toda vez que vem para a feira de San Francisco? Flores.

 
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Publicado em:
RED Report

Edição:
16

Data:
Outubro/Novembro 2011

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