Abri o laptop aqui no voo de volta da South African Airways de Johannesburgo para o Brasil para rabiscar alguns highlights afetivos da marcante semana que acabo de viver na África do Sul e confirmei uma impressão corriqueira das minhas viagens: as pessoas são fundamentais para que se possa ter uma experiência de viagem positiva.

 

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O incrível entardecer no topo da Table Mountain, cartão-postal por excelência da Cidade do Cabo (foto samesamephoto)

 

 

Eu vi o famoso por do sol do alto da Table Mountain da Cidade de Cabo, tomei umas e outras na frente da casa do Mandela em Johannesburgo, pedalei entre os vinhedos da Região das Winelands. Mas quando eu dou uma rebobinada para decupar que emoção ficou mais gravada no hd interno, me vêm à mente primeiro as gargalhadas com nativos, e só depois os lugares bonitos da terra de Mandela.

 

Pedalada entre os vinhedos do Babylonstoren, em Franschhoek (foto samesamephoto)

Pedalada entre os vinhedos do Babylonstoren, em Franschhoek (foto samesamephoto)

 

Que essa constatação não apequene minha impressão do país. A velejada na baía de Cape Town ventilou minha mente e arejou meu coração, assim como os grafites e o frescor da arquitetura do revitalizado bairro de Maboneng, em Joburg, me inspiraram a voltar para São Paulo com vontade de agir para que o Minhocão que me avizinha se torne um dia uma experiência igualmente transformadora de realidades – não só imobiliárias, mas especialmente sociais.

 

Estufa de plantas onde é servido o café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren

Estufa de plantas onde é servido o café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren (foto samesamephoto)

 

Daria para incluir na listinha de embelezar os olhos as estradas litorâneas que conectam a Cidade do Cabo ao extremo sul do continente, a estufa de plantas onde tomei café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren, entre Stellenbosch e Franschhoek, e até a impecabilidade na apresentação de cada prato do menu-degustação no The Pot Luck Club, o restaurante bacanudo do chef número 1 da Cidade do Cabo, Luke Dale-Roberts – a casa fica entre as lojas de design do bairro de Woodstock – outro exemplo cidadão de como salvar bairros abandonados.

 

 

Vista a partir da entrada do The Pot Luck, em Woodstock, na Cidade do Cabo: com a Table Mountain ao fundo

Vista a partir da entrada do The Pot Luck, em Woodstock, na Cidade do Cabo: com a Table Mountain ao fundo (foto samesamephoto)

 

Mas se alguém me perguntar quais foram as experiências mais marcantes que vivi, elas serão sempre lembradas com um anfitrião buena gente à frente – e bem distante das atrações turísticas. A começar da sunset party WaxOn, na Maboneng johannesburguiana, para onde fomos levados praticamente direto do aeroporto por minha amiga Meruschka Govender.

 

Festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: no fim de tarde do sábado, à beira da piscina e ao lado do Museu de Design Africano

Festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: no fim de tarde do sábado, à beira da piscina e ao lado do Museu de Design Africano

 

Travelblogger-fera que eu tinha conhecido exatamente um ano antes na expedição por Kerala, na Índia, Meruschka é apaixonada por sua cidade natal. E no dia seguinte, o domingo, fez questão de conectar – a mim e aos meus sete companheiros de viagem – aos músicos do BCUC, uma baita banda do Soweto, assim como ao fotógrafo Monde Nyovane e ao designer Pule Magopa, que acabaram sendo nossos guias informais pelo bairro-símbolo da luta anti-racial durante os anos tenebrosos do Apartheid.

 

Da dir. para a esq., Tiago Múcio, eu, Meruschka Govender e Victor Affaro, na festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo

Da dir. para a esq., Tiago Múcio, eu, Meruschka Govender e Victor Affaro, na festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: ter as conexões certas ajuda a saber o que rola de melhor na cidade

 

Meruschka, danada como esse nome difícil de soletrar, foi a terrível responsável pelas duas noites em que praticamente troquei a cama pela pista de dança. Para minha sorte, a do meu segundo sábado em Joburg foi justamente no aniversário dela, muito bem comemorado no festival Drum Beats em pleno modernoso Teatro do Soweto. E, claro, com mais uma pá de amigos baladeiros. Pronto: jazia ali a minha imagem clichê do Soweto pobre, violento, feio.

 

Drum Beats, no Soweto Theatre

Drum Beats, no Soweto Theatre: três palcos, bandas de black music da boa e o fim da imagem-clichê de um bairro feio, pobre e violento (foto samesamephot0)

 

Com o Jabu, o taxista que tinha me levado para o Soweto, a conversa foi uma divertidíssima filosofada a dois. Por que diacho um branco chegou a achar que é melhor que um preto ou um ‘verde’ (como brincou Jabu)?. E para que judeus e muçulmanos seguem se matando se nem eles sabem ao certo se o Deus que reivindicam existe mesmo? Rimos pensando ser provável que, caso exista, dê-lhes uma bela sova quando forem fazer o acerto de contas no hora do juízo final.

 

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Tiago Múcio, Manoel Mendes, eu e Patrícia Palumbo no V&A Waterfront, da Cidade do Cabo: observando focas e ouvindo histórias do lobo do mar

 

Outra frase – e mais boas risadas – foram disparadas pelo Manoel Mendes, um marinheiro angolano radicado no V&A Waterfront, quando defendia que navegar é tão preciso quanto viver a vida intensamente. “Temos que pensar fora da caixinha agora, afinal vamos ter muito tempo depois dentro da outra caixinha debaixo da terra”, disse o lobo do mar, que insistiu para que velejássemos por aquelas águas – o que rendeu imagens lindas da Table Mountain vista a partir do mar. Sósia do Hemingway e idealizador da Fundação Izivunguvungu, que transforma menores de rua em marujos e construtores de barco, Mané é o sujeito que preparou o veleiro Picolé, que o brasileiro Beto Pandiani usou para cruzar o Atlântico desde a Cidade do Cabo até Ilhabela em 2013.

 

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Velejando pela Cidade do Cabo entre bons amigos: de barco dá para visitar a Robben Island, onde Nelson Mandela ficou preso por quase duas décadas (foto samesamephoto)

 

Os anfitriões bons de papo foram muitos. No restaurante The Tasting Room, que fica no hotel Le Quartier Français da Região dos Vinhos, a chef Margot Janse contou sobre como deixou a Holanda para seguir um amor na África do Sul – mas deixou o príncipe de lado e acabou apaixonada mesmo foi pelo país. Os garçons do seu salão nem pareciam estar numa casa estrelada: deixaram o carão de lado e trocavam ideias com a gente numa boa. Meu preferido foi o Bradley Isaacs, que passou a noite tirando onda do atendente que dizíamos ser a cara do jogador de futebol Robinho.

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Bradley Isaacs, simpático garçom do restaurante The Tasting Room, do hotel Le Quartier Français, em Franschhoek (foto samesamephoto)

 

No entorno de outras mesas, teve ainda o jantar com a encantadora Elmine Nel, na charcuteria da Babylonstoren, e o papo com o chocolatier Anthony Gird, da doçaria Honest, já na Cidade do Cabo. Já no Nobu do hotel One&Only da Cidade do Cabo, os onipresentes vinhos sul-africanos deram lugar a boas rodadas de saquê em uma longa mesa para doze. Aos meus colegas de viagem que já eram bons de história – gente do quilate de Baba Vacaro, Helena Mattar (do site Noz Moscada), Mercedes Tristão, Patrícia Palumbo, Ronaldo Fraga, Tiago Múcio e Victor Affaro – se juntaram quatro nativos. O Miguel Brunido, agente de viagens da Triumph Travel, já tinha virado brother e até nos levado para andar descalços à beira-mar em Camps Bay. Aí veio o blogueiro de moda Malibongwe Tyilo, ressaltando o jeito estiloso de os homens sul-africanos se vestirem (mais diferentão que o das mulheres). E as colegas de trabalho do Creative Cape Town Caroline Jordan e Didintle Ntsie, compartilhando como fazem para atrair empreendedores criativos aos bairros em vias de renovação. Só não lembro do que rimos tanto. Deve ser efeito do saquê.

 

Os oito viajantes da expedição urbana TERRAMUNDI Creators e quatro convidados da Cidade do Cabo: jantar divertido e foto tirada na porta do banheiro!

Os oito viajantes da expedição urbana TERRAMUNDI Creators e quatro convidados da Cidade do Cabo: jantar divertido e foto tirada na porta do banheiro!

 

Inesquecíveis foram as duas horas de roda de djembê que toquei na rua, depois de uma boa conversa com o Mestre Manan Ide. Assim como os tambores que fazem, vendem na loja Touareg Trading e ensinam a tocar, Manan e seus irmãos Aziz e Ibrahim são três nativos de Gana que enchem de vibração a Long Street nas tardes de sábado. E curioso é como fiquei sabendo desse programaço – logo eu, que tive aulas de djembê em São Paulo por quase um ano tempos atrás.

 

Roda de djembê em uma travessa da Long Street, superdica do Eduardo Shimahara e na companhia dos amigos Raul Cilento e Bruna Faria, recém-mudados para a a cidade (foto samesamephoto)

Roda de djembê em uma travessa da Long Street, superdica do Eduardo Shimahara e na companhia dos amigos Raul Cilento e Bruna Faria, recém-mudados para a a cidade (foto samesamephoto)

 

Quem deu a dica foi um amigo de SP, o Raul Cilento, que se mudou com a namorada Bruna Faria para Cape Town e embarcou, casualmente, no mesmo voo que eu. O Raul, por sua vez, tinha lido em um blog o post do Eduardo Shimahara, outro apaixonado pela cidade que escolheu para viver – e um engajado atuante na questão da sustentabilidade. O ciclo se completou quando tocamos, os quatro juntos – entre outros da minha turma de viagem – os tambores de Manan e seus irmãos.

 

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Azis e Manan Ide, os irmão de Gana que fazem uma roda aberta ao ar livre de tocadores de djembê nos sábados à tarde na Cidade do Cabo (foto samesamephoto)

 

Mas a conversa que melhor traduziu a impressionante transformação recente vivida pela África do Sul foi com o Mithey. DJ figuraça que usa aqueles “oclões” de mosca, ele vende LPs na Mabu Vynil, nas bandas da descolada Kloof Street (que por sua vez fica em Gardens, uma espécie de bairro dos Jardins da Cidade do Cabo). A portinha é simplesmente a loja de um fã que descobriu o fabuloso destino de seu ídolo, o músico Sixto Rodriguez – tema do documentário Searching for the Sugar Man. Mithey tem motivos dolorosos para pregar que vivamos o “One Love” e acreditar que só a música salva. Ele não esquece de quando era criança, sentado nos ombros do pai, e via o velho apelando para a violência na luta contra o apartheid. “Para eu não me assustar com os tiros, ouvia música com fones de ouvido no último volume.” Porrada a conversa com o Mithey. E o cara é um doce de pessoa, acredite. Pela sua história de superação me ajudou a voltar com a melhor das impressões de um país vivo, pulsante, em plena transformação positiva – e com alguns dos melhores anfitriões que já conheci.

 

DJ Mithey, que trabalha na loja de CDs Mabu Vynil, que ficou famosa pelo filme Searchinfg for the Sugar Man, sobre o cantor Rodriguez

DJ Mithey, que trabalha na loja de CDs Mabu Vinyl,  famosa pelo filme Searchinfg for the Sugar Man, sobre o cantor Rodriguez (foto samesamephoto)

 

Código de ética Same Same:

O jornalista Daniel Nunes Gonçalves viajou para a África do Sul a convite da operadora de viagens TERRAMUNDI e do Projeto TERRAMUNDI Creators, que busca conceber roteiros criativos a partir de experiências de interação com moradores antenados. E voltou mais inspirado do que nunca.

 
Publicado em:
Same Same


Data:
31 de março de 2015

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