Ela está bem distante das idílicas praias brasileiras e espalha-se em um labirinto de ladeiras estreitas forradas por pedras irregulares onde é difícil caminhar.

 

Entardecer em Ouro Preto. Foto de ADRIANO FAGUNDES (www.adrianofagundes.com)

Entardecer em Ouro Preto. Foto de ADRIANO FAGUNDES (www.adrianofagundes.com)

 

Ainda assim, a Ouro Preto onde o artista plástico Carlos Bacher tem vivido os últimos 43 anos (de seus 74) é um convite a caminhadas lentas e sem destino, observando as casas coloniais coloridas, o grafismo dos telhados vermelhos, “os sóis e os crepúsculos por trás das montanhas” ­– como define o pintor, um dos muitos com ateliês abertos a visitação. “Este relevo acidentado era o lugar ideal para ‘não’ se fazer uma cidade”, brinca Bacher, “mas a sequência de altos e baixos da paisagem criou uma dinâmica deliciosa ao olhar.”

Como acontece com quase todo mundo que observa Ouro Preto pela primeira vez, do alto da Praça Tiradentes, Carlos Bracher se apaixonou pelo lugar. Tanto que resolveu deixar para trás sua Juiz de Fora natal, que ficava perto do lindo litoral do Rio de Janeiro, para montar uma casa-estúdio em um casarão centenário entre ruas sinuosas. “Quando abro a janela da sacada dos fundos, vejo um quadro pronto, com as torres das igrejas despontando diante do horizonte verde”, conta o artista, que tem uma retrospectiva de 80 trabalhos de seus 53 anos de carreira rodando o Brasil até o fim de junho (em fevereiro a mostra está em São Paulo, em março segue para o Rio). Quando abre a porta da frente de casa, Bracher vê mais inspiração: “logo ali adiante está a fachada espetacular da Igreja do Carmo, concebida pelo mestre Aleijadinho”, descreve.

 

Artista Carlos Bracher, que adotou Ouro Preto como cidade e está com exposição no CCBB (foto ADRIANO FAGUNDES, www.adrianofagundes.com)

Artista Carlos Bracher, que adotou Ouro Preto como cidade  (foto ADRIANO FAGUNDES, www.adrianofagundes.com)

 

ETERNA VILA RICA

Localizada a 1h30 do aeroporto de Belo Horizonte, capital do estado brasileiro de Minas Gerais, Ouro Preto guarda o maior patrimônio arquitetônico do barroco no país e se destaca no clássico circuito das Cidades Históricas, que preserva uma parte importante da história do Brasil. Muito antes de hotéis de luxo, restaurantes estrelados e galerias de arte como a do premiado Carlos Bracher encherem de charme essas ruelas repletas de praças, jardins e fontes, 30 mil garimpeiros lotaram o pequeno povoado de Vila Rica, no fim dos anos 1600, em busca de pedras escuras supervaliosas. Era o ouro negro que ajudaria a fazer a fortuna dos colonizadores portugueses e daria origem ao nome Ouro Preto – como o lugar passou a ser chamado a partir de 1823.

Embora até hoje várias minas de ouro abertas no subsolo durante os séculos 17 e 18 possam ser visitadas, a extração do minério virou coisa do passado. A Ouro Preto do século 21 esbanja outras riquezas. A primeira cidade brasileira a ganhar o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO parece uma exposição de arte ao ar livre. O casario do Centro Histórico está bem preservado, como se nota no Teatro Municipal, de 1770, considerado o mais antigo em funcionamento no país. Os museus apresentam desde preciosidades da mineralogia – como na Casa dos Contos, de 1784, onde o ouro era pesado e fundido – até estátuas religiosas impecáveis – como os mais de 160 oratórios a santos do Museu do Oratório e as vestes com fios de ouro do Museu de Arte Sacra.

 

Obras do Mestre Aleijadinho, o grande mestre das artes nas Cidades Históricas de Minas Gerais (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com.br)

Obras do Mestre Aleijadinho, o grande mestre das artes nas Cidades Históricas de Minas Gerais (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Além disso, inúmeros artistas ainda produzem ali trabalhos originais: Paulo Valadares e Milton Passos pintam paisagens a óleo, enquanto os irmãos Bié e Veveu esculpem em pedra-sabão. Da mesma forma que as artes plásticas coloniais do Brasil nasceram da exploração do ouro e incorporaram influências externas, os artistas atuais reciclam as inspirações do barroco e do rococó em criações contemporâneas. É o caso do próprio Carlos Bracher, que em 2014 pintou 85 quadros para celebrar os 200 anos da morte de Aleijadinho.

Nascido com o nome Antônio Francisco Lisboa, o escultor, entalhador e arquiteto Aleijadinho é considerado por muitos estudiosos o maior expoente do barroco americano e o grande nome do rococó nacional. Seu apelido surgiu da doença degenerativa que teria sacrificado seus pés e mãos: dizem que o cinzel com que esculpia suas obras precisava ser amarrado em seus pulsos. Isso não impediu que ele deixasse, entre centenas de obras, relíquias como a igreja São Francisco de Assis, de 1810. Em 2009, essa obra-prima foi eleita uma das sete maravilhas de origem portuguesa no planeta. Parte de suas criações pode ser conhecida no Museu Aleijadinho, que funciona dentro da igreja.

 

Interior da igreja Matriz (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com.br)

Interior da igreja Matriz (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

ARTE POR TODA PARTE

Ainda que as igrejas forradas de ouro (a Matriz de Nossa Senhora do Pilar guarda 400 quilos em suas paredes) e museus bem organizados evidenciem a riqueza histórica de Ouro Preto, a colorida cidade das montanhas de Minas está longe de ser um lugarejo parado no tempo. “A cidade tem um perfil bastante jovem porque, dos 75 mil habitantes do município, 12 mil são estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)”, conta Willian Adeodato, diretor do Visitors Bureau local. Quem desembarcar ali em fevereiro, quando o Carnaval leva às ruas toda a alegria do povo brasileiro, não vai reconhecer as ruas tranquilas onde o pintor Carlos Bracher gosta de passear em paz. As dezenas de repúblicas habitadas pelos estudantes se transformam em hostels, as pessoas saem às ruas vestidas com fantasias divertidas e grupos musicais desfilam pelas ladeiras. “Este é um dos eventos que pode lotar os 1600 leitos de nossos 50 hotéis”, conta Adeodato. Meio milhão de turistas visita a cidade a cada ano.

O calendário anual é intenso: na Semana Santa, o chão das ruas é forrado por flores e serragem colorida; a Mostra de Cinema instala um telão ao ar livre na Praça Tiradentes em junho; em julho, o Festival de Inverno tem apresentações de música, teatro e circo; amantes da literatura se reúnem em setembro para o Fórum das Letras; e dezembro é o tempo do evento Tudo é Jazz, agitando com música de qualidade boa parte dos 57 bares e restaurantes.

É nas mesas de Ouro Preto, por sinal, que outras criações artísticas evidenciam o encontro da tradição “mineira” com a contemporaneidade: nos bares – aqui chamados de “botecos” – e restaurantes pode-se degustar a famosa comida de Minas Gerais, uma das mais respeitadas do Brasil. A culinária regional parte da mistura de arroz, feijão e couve para apresentar preparos com carne de porco (o torresmo e as linguiças são deliciosos), boi (a carne seca é tentadora) e frango (a galinha de cabidela vem temperada no próprio sangue). Mandioca e angu de fubá de milho também estão sempre presentes – aperitivos irresistíveis são o bolinho de mandioca e o pastel (salgado) de angu. Outra iguaria de todas as horas é o pão-de-queijo, que tem em Minas as receitas originais que foram difundidas por todo o país. O queijo também pode ser comido na sobremesa, acompanhado de doce de goiaba (sobremesa conhecida como Romeu e Julieta). Antes, durante ou depois das refeições, essas receitas costumam ser acompanhadas da cachaça, a famosa aguardente brasileira (muito usada para fazer caipirinha), que tem em Minas Gerais um de seus berços mais respeitados. Mas é bom bebericá-la com cuidado: pode ser difícil caminhar depois pelas ladeiras tortuosas de Ouro Preto.

 

Folclore regional nas ruas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Folclore regional nas ruas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

HOTÉIS

 

SOLAR DO ROSÁRIO

Rua Getúlio Vargas, 270

www.hotelsolardorosario.com

$$$

 

POUSADA DO MONDEGO

Largo de Coimbra, 38

www.mondego.com.br

$$

 

POUSADA DOS MENINOS

Rua do Aleijadinho, 89

www.pousadadosmeninos.com.br

$$

 

 

RESTAURANTES

 

SENHORA DO ROSÁRIO

Hotel Solar do Rosário

www.hotelsolardorosario.com

 

BENÉ DA FLAUTA

Rua S. Francisco de Assis, 32

www.benedaflauta.com.br

 

CHAFARIZ

Rua São José, 167

 

 

BARES E CAFÉS

 

CAFÉ CULTURAL DE OURO PRETO

Rua Cláudio Manoel, 15

www.cafeculturalop.com.br

 

CHOPP REAL

Rua Barão de Camargos, 8

 

ESCADABAIXO

Rua Conde de Bobadela, 122

www.escadabaixo.com.br

 

 

ATRAÇÕES

 

Ateliê Carlos Bracher

Rua Coronel Alves, 56

 

Casa dos Contos

Rua São José, 12

 

Museu Aleijadinho (Igreja São Francisco de Assis)

Largo de Coimbra, s/n

 

Museu de Arte Sacra (Matriz de N. S. do Pilar)

Praça Monsenhor Castilho Barbosa, s/n

 

Museu do Oratório (Igreja do Carmo)

Rua Brigadeiro Musqueira, s/n

 

As montanhas, os casarões e as ladeiras charmosas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

As montanhas, os casarões e as ladeiras charmosas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

REPORTAGEM PUBLICADA ORIGINALMENTE NA REVISTA IN, DA LAN, EM FEVEREIRO DE 2015

 
Publicado em:
In, revista de bordo da LAN


Data:
Fevereiro de 2015

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