Eu só sabia três coisas sobre a Islândia quando desembarquei na capital Reykjavík: que aquela era a terra da cantora Björk (de quem sou fã confesso), que a economia do país estava quebrada e que sua natureza selvagem tinha sido inspiração para Viagem ao Centro da Terra, o clássico livro de Julio Verne. Tanto que as cinzas provocadas pela erupção de um vulcão de nome quase impronunciável ali, no meio do nada do Atlântico Norte, em abril, havia paralisado o tráfego aéreo mundial. A fumaceira já tinha desaparecido quando cheguei, em um entardecer de junho, primeiro dos únicos três meses de verão. Havia, nessa época, outro espetáculo no céu: o sol da meia-noite. Por estar tão perto do Polo Norte – a 66 graus de latitude, na linha do círculo polar ártico –, a Islândia se destaca como um raro ponto do planeta onde o sol desce até a linha do horizonte mas não desaparece completamente. Sem a escuridão para limitar o dia, nós – e as centenas de turistas que lotavam o aeroporto – podíamos aproveitar bem a temperatura mais quente do ano: média de 10 °C, contra 0 °C do inverno, quando os dias chegam a ter só duas horas de luz e o céu negro ganha as cores alucinantes da aurora boreal.

Casas seculares feitas de pedra e cobertas por telhados verdes em Skógar (SameSame Photo)

Ladeada por lava vulcânica petrificada, a única grande estrada do país, a Rodovia Nacional 1, faz um círculo beirando o litoral dessa ilha do tamanho do estado de Pernambuco. Intransitável para quem não tem um jipão superequipado, seu interior se traduz como uma imensidão de montanhas, cerca de 25 grandes vulcões e glaciares que cobrem 15% do território. Frustrando nossas expectativas, soubemos que o vulcão Eyjafjallajökull, agora famoso e calminho, não tinha como ser avistado por terra. “Seria necessário fazer uma escalada íngreme no glaciar, ainda assim dependendo das condições da neve e do gelo”, alertou o geólogo Ari Guðmundsson. Seu típico sobrenome chama a atenção para uma peculiaridade: os sobrenomes islandeses repetem a alcunha do pai acrescida de um sufixo: son, para filhos, e dóttir, para filhas.

Felizmente, não é preciso subir vulcões para perceber o bafo quente e o cheiro de enxofre do subsolo fervente: há piscinas de água quente por todo canto. Basta dirigir 14 quilômetros desde o aeroporto para se surpreender com a mais cênica delas, a Lagoa Azul. Transformada em spa, vive cheia de banhistas lambuzados com a lama branca extraída de seu fundo. Compondo a paisagem fumegante, focos de fumaça são expelidos do solo, de onde brota água a 240 °C para que a usina geotérmica vizinha produza eletricidade para a região. Ali perto fica o Strokkur, jato que jorra a 35 metros de altura a cada oito minutos e melhor exemplo atual de gêiser – palavra que a esquisita língua islandesa cedeu ao vocabulário internacional. O tour pelo chamado “círculo dourado” turístico inclui ainda a visita à Gullfoss, uma espécie de pequena Foz do Iguaçu com cataratas de mais de 30 metros, e ao Parque Nacional de Þingvellir, onde se vê a gigantesca falha tectônica que divide a ilha. Na fenda entre os paredões rochosos funcionou, em 930, o primeiro parlamento do mundo.

O lago glacial de Jökulsárlon solta blocos de gelo como este, que parece um urso dando um abraço (SameSame Photo)

Foi em 874 que chegaram à ilha os primeiros vikings noruegueses. Depois deles, a maior influência genética do povo islandês vem da Dinamarca, que dominou o país entre 1380 e 1944. Mesmo após conquistar a independência tardia, a Islândia continuou isolada geograficamente e culturalmente, vivendo da pesca e da agricultura. A cerveja, por exemplo, era proibida até 1989, para que não abalasse o consumo tradicional do destilado brennivin. A partir dos anos 1990, o pequeno país nórdico abriu sua economia e meteoricamente se tornou um dos mais ricos do mundo. Com a mesma velocidade, o castelo ruiu. A crise econômica de 2008 evidenciou os erros da política financeira, quebrou bancos e desvalorizou abruptamente a moeda, a coroa islandesa. Até as lojas do McDonald’s e Pizza Hut fecharam. Com os preços descendo das alturas escandinavas, viajar para lá voltou a ser viável. Mas aí veio o vulcão com nome de palavrão, cancelando voos e afugentando turistas. Endividado mas disposto a recuperar a lotação das aeronaves, o governo reagiu investindo 5,5 milhões de dólares no setor, e os visitantes voltaram.

Tanto a história quanto a realidade islandesas podem ser conhecidas ao viajar de carro pelo sul da ilha. Foi o que fizemos, usando como base o aconchegante Hotel Rangá, em Hella, único quatro estrelas da ilha. Em junho, a cidadezinha de Hafnarfjörður se agitava com um festival viking que simulava batalhas e danças. Adiante, o Museu de Skógar, localizado na vila de mesmo nome e vizinho de uma das muitas cachoeiras que despencam de paredões, preserva casas seculares. Feitas de pedra, são cobertas por plantas que formam “telhados verdes”, ideais para manter aquecida a temperatura interna. A ausência de árvores assusta. A colonização predatória e as erupções de vulcões mais ameaçadores que o Eyjafjallajökull fizeram com que o verde da ilha se restringisse, hoje, aos arbustos, pastos para ovelhas e flores que só no veranico colorem vilarejos charmosos como Vík. O lugar é ideal para observar o mar e o voo das aves do alto dos abismos de 120 metros de Dyrhólaey.

Iceland, a terra do gelo, faz jus ao nome quando exibe, no extremo sudeste da ilha, o glaciar de Vatnajökull, massa de gelo que ocupa 8% do país e cuja espessura ultrapassa 1 quilômetro. O braço que beira a estrada em Skaftafell fica dentro do maior parque nacional, onde um camping serve como ponto de partida para trekkings sobre o gelo, exigindo grampos nas botas. Formado pelo degelo de outro braço do glaciar, o lago de Jökulsárlon parece mais surreal. Icebergs de formas curiosas descem por um riacho até desaguar na praia, a apenas 100 metros dali. Blocos de gelo boiam entre as ondas e vários fragmentos descansam, como conchas feitas de cristal, sobre a areia preta vulcânica.

O tour pelo chamado “círculo dourado” turístico inclui a visita à Gullfoss, uma espécie de pequena Foz do Iguaçu com cataratas de mais de 30 metros: do ladinho de Reykjavík (SameSame Photo)

O que eu não sabia era que Reykjavík, a capital onde vivem 120 dos 300 mil habitantes da ilha, era tão pulsante nos fins de semana. Na avenida principal, a Laugavegur – onde fica o bem localizado hotel Room With a View –, assim como nos arredores, tudo estava movimentado: os cafés, as livrarias, os museus, as galerias de arte, o mercado de pulgas, as praças, as ruas com sobradinhos de telhados coloridos. As vitrines das lojas de roupa vintage, como a Rokk Og Rósir, refletem o ambiente fashionista, evidente nos trajes dos jovens quando a noite chega – no relógio, não no céu. Babados e roupas de camponesas fazem o estilo das meninas. “A última moda entre os rapazes é vestir todo tipo de gravata”, explicou o vendedor Sigurður Birgisson, 23 anos, usando um bigodinho das antigas. Como os mais de cinquenta bares e casas noturnas não cobram entrada e permitem que se saia com o copo na mão, a temperatura sobe à medida que as pessoas bebem, fazem amizade e tropeçam de bar em bar – muitos deles com boa música ao vivo. A luz do dia brilhava pelas janelas do bar Boston quando a DJ Rósa Sigríðardóttir subia nas picapes e praticamente se jogava em cima de uma amiga, a artista plástica Berglind Hlynsdóttir, na minúscula pista de dança. “Estávamos hibernando em casa há meses, não víamos a hora de chegar o verão”, comemora Berglind. Sem hora para acabar às sextas e aos sábados, a noitada de Reykjavík só sossega depois das 7 da manhã – mesmo durante o inverno.

Com tanta gente trocando o dia pela noite, os hotéis investem em cortinas negras que permitam blecaute nos quartos – é o caso do Loftleidir, com vários quartos decorados por artistas locais. O antídoto para a ressaca do dia seguinte é um só: as sete piscinas públicas, que aproveitam a água quente farta em banheironas coletivas com temperaturas de 36 a 44 °C. Antes ou depois do banho, o entretenimento urbano é garantido. Do cais do porto partem tours para observar baleias e pássaros típicos, como os simpáticos puffins. É ali, no despojado restaurante Sægreifinn, que o cozinheiro Kjartan Halldórsson serve espetinhos de baleias. Os gigantes do mar também podem ser degustados em forma de sushi, assim como os cavalos locais, ou em pratos elaborados, como também acontece com os puffins. Para se deleitar com a mais premiada cozinha islandesa, o destino é o Vox, restaurante que defende o manifesto da Nova Cozinha Nórdica e só utiliza ingredientes da região. Depois da comilança e dos passeios, moradores e visitantes de Reykjavík voltam aos bares. A vida noturna do ambiente urbano se mostra tão selvagem quanto as paisagens de seus gêiseres, glaciares e vulcões. Deixei a Islândia sem ver o vulcão e percebendo que a crise é uma boa oportunidade para os viajantes. E tive a melhor surpresa ao encostar no balcão para tomar uma saideira no bar Boston, a 1 hora da madrugada de uma segunda-feira. Quem estava ao meu lado, se jogando na balada? Acredite se quiser: era a Björk.

 

INFO:

REYKJAVÍK, Room With a View – Laugavegur 18, tel. (354) 896-2559, www.roomwithaview.is; Hotel Loftleidir – Við Hlíðarfót, tel. (354) 444-4000, www.icelandairhotels.com; Vox Restaurant & Bistro – Hilton Reykjavík Nordica, tel. (354) 444-5050, www.vox.is; Sægreifinn, Geirsgata 8, tel. (354) 553-1500; Boston Bar, Laugavegur 28b, tel. (354) 517-7816; Rokk Og Rósir – Laugavegur 17; Blue Lagoon – 240 Grindavík, tel (354) 420-8800, www.bluelagoon.com; ÞingvellirNational Park – 801 Selffoss, tel. (354) 482-2660, www.thingvellir.is; HELLA, Hotel Rangá – Suðurlandsvegur 851, tel. (354) 487-5700, www.hotelranga.is; www.visiticeland.com

 
Publicado em:
Revista RED Report

Edição:
9

Data:
Junho/Julho 2010

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