Vinho quente, barracas de comida típica, música ao vivo, a praça toda decorada. O cenário festivo das barraquinhas montadas diante da igreja bem poderia ser de uma festa de São João no Brasil. Mas estamos do lado de lá do Atlântico e em outra época do ano.

 

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Mercado Gendamermarkt, o principal de Berlim (fotos Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

É inverno no Hemisfério Norte e praças como a Gendarmenmarkt, de Berlim, e a Rathausplatz, de Viena, fervem de gente curtindo alguns dos mais vibrantes mercados de Natal da Europa. Espalhados da Alemanha à Áustria e da Dinamarca à República Tcheca, esses festivais são o principal programa social para driblar o frio no continente, de meados de novembro até a virada do ano.

No início de dezembro, quando a reportagem visitou os principais eventos natalinos de Berlim e Viena, a temperatura beirava o zero grau. Vestido no estilo cebola – com várias camadas de roupas – fui conferir os bons motivos para sair do clima quentinho dos museus e restaurantes para enfrentar a “friaca” dos mercados ao ar livre.

 

Bolinhas de natal Viena Belvedere DSC05734

 

Em vez de fogueira, aquecedores elétricos

Primeira boa surpresa: além do calor humano das multidões e dos drinques quentes, várias feiras natalinas amenizam o frio externo com aquecedores elétricos dispostos no entorno de algumas barracas. Não existem fogueiras como as que ficam cercadas por nossas bandeirinhas juninas.

Com árvores de Natal gigantescas, luzinhas de Natal que arrancam lágrimas da vovó e presépios com anjos bem mais presentes que o Papai Noel na decoração, os mercados natalinos europeus diferenciam-se conforme os costumes de cada cidade anfitriã.

 

Uma das barracas do mercado diante do Palácio Schonbrunn, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

Uma das barracas do mercado diante do Palácio Schonbrunn, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Os mais tradicionais estão na Alemanha. Desde 1434 o mercado de Dresden agita a cidade, que hoje se orgulha de compartilhar um panetone de quatro toneladas. Nuremberg, Munique e Stuttgart são outros que disputam quem tem o melhor mercado natalino do país.

No Tivoli Garden de Copenhagen, na Dinamarca, o espetáculo de quilômetros de árvores iluminadas impressiona. Bruxelas, na Bélgica, destaca, entre as 240 bancas de seu principal mercado, as que vendem chocolate, donuts e waffles de qualidade.

Praga, na República Tcheca, capricha no artesanato de brinquedos e joias, além de doces e peixes deliciosos. Tão respeitado quanto os eventos de Viena, o festival natalino da também austríaca Salzburg é menor, tem ares medievais e se orgulha de seus desfiles de rua e presépios impecáveis.

 

Orquestra e coral se apresentam em Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

Orquestra e coral se apresentam no Gendamermarkt, em Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

NATAL EM VIENA
De sanfona-zabumba-triângulo aos violinos

Templo da música clássica, Viena recebe seus visitantes com orquestra ou valsa desde quando o avião da Austrian Airlines pousa até a hora dos shows nos mercados natalinos – normalmente depois das 16h, quando já é noite nessa época do ano.

No “arraiá” da terra de Mozart e Strauss, a clássica Danúbio Azul é tão tocada quanto Asa Branca é nas nossas festas juninas. Mas, em vez do trio de forró com sanfona, zabumba e triângulo, o que se vê são violinistas, corais infantis e belas orquestras ao ar livre.

 

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Árvore de corações iluminados do Mercado Wiener Adventzauber, em Rathausplatz, Viena (fotos Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

O melhor jeito de explorar Viena e seus mercados é pegar um bonde na Ringstrasse, via circular que concentra seus edifícios imperiais e que completa 150 anos em 2015. Ela é também ponto de partida para as residências de Mozart, Strauss e algumas das 67 casas onde o alemão Beethoven teria vivido antes de ali morrer (dizem que ele era sempre expulso em função do barulho que fazia ao ensaiar).

Nos passos de Freud e Klimt
A tradição dessas festas pré-natalinas em Viena existe desde os anos 1600. É tão popular quanto os bailes de gala do inverno e hoje se repete em mais de 20 lugares da cidade. Um bom jeito de escolher em qual delas investir é seguindo o rastro dos nativos famosos.

 

Café Landtman, que era frequentado por Freud, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves, samesamephoto)

Café Landtman, que era frequentado por Freud, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves, samesamephoto)

 

Com 150 barracas e árvores decoradas com corações, violinos ou presentes gigantes, o mercado Wiener Adventzauber, em Rathausplatz, é o principal (e mais cênico) deles. Acontece diante da prefeitura e do Café Landtmann, fundado em 1873 e que era frequentado por Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Cafés, por sinal, são uma deliciosa tradição da cidade.

Quem quiser ver o espetacular quadro O Beijo, de Gustav Klimt, pode aproveitar para curtir também o mercado montado diante do imponente edifício barroco do Museu Belvedere, que abriga a obra. Menor, com 50 estandes, ele tem até carrossel e trenzinho para as crianças.

 

Cartaz de divulgação do Quadro O Beijo, de Klimt, principal atração do Museu Belvedere

Cartaz de divulgação do Quadro O Beijo, de Klimt, principal atração do Museu Belvedere

 

Ouvindo Mozart no lar da rainha Sissi
O suntuoso Palácio de Schönbrunn é uma parada turística quase obrigatória. E o mercadoWeihnachtsmarkt, diante dele, vende os mais caprichados objetos de decoração natalina, chás e especiarias. Seus shows ao ar livre, comidas e bebidas são de primeira linha.

A visita pode ser casada com um espetáculo de música clássica dentro do espaço onde funcionava a estufa de plantas da residência de verão imperial. Pode-se ainda circular por alguns dos 1441 cômodos da casa do imperador Franz Joseph e da famosa imperatriz Silvia, a Sissi – personagem eternizada pela atriz Romy Schneider em três filmes na década de 1950.

Outra experiência única – e que não precisa acontecer só em tempos de Natal – é pernoitar em um apartamento de luxo do palácio. Administrado pela rede hoteleira Austria Trend, a suíte reproduz as habitações luxuosas da imperatriz Sissi. A diária custa a partir de 699 euros.

 

Palácio Schonbrunn e a suíte onde dormia a rainha Sissi, em Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

Palácio Schonbrunn e a suíte onde dormia a rainha Sissi, em Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

MERCADOS DE BERLIM

Cosmopolitismo e DJ na praça

Berlim não tem a mesma tradição natalina que as cidades alemãs de Dresden e Nuremberg, mas se diferencia pelo ambiente cosmopolita de seus mercados, que têm até DJ. As barracas de vinho quente e ponche, comidas típicas e artigos de Natal estão sempre movimentadas.
Nas cerca de 80 feiras natalinas da capital, as pessoas interagem de forma despojada e brasileiros costumam ser bem recebidos.

 

Gendamermarkt, o mercado mais requintado de Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

Gendamermarkt, o mercado mais requintado de Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Celebrando 25 Natais sem o muro
Vários mercados de Natal se avizinham de pontos que recontam a história da Guerra Fria e das guerras mundiais. O mais bonito e repleto de barracas de qualidade, na linda praça Gendarmenmarkt – diante da opera house Konzerthaus, fica no Mitte, bairro onde prédios abandonados do antigo lado leste da cidade viraram points de artistas e boêmios.

Ao lado da grande antena de Alexanderplatz, que já foi o centro da Berlim Oriental, o mercado Rotes Rathaus tem decoração inspirada em casas do século 19 e conta com uma pista de patinação no gelo diante de uma linda e colorida roda-gigante de 50m de altura.

 

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Roda gigante diante do mercado Rotes Rathaus, em Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Patinadores vão curtir também o Winterwelt, o mercado de Potsdamer Platz, onde até 25 anos atrás passava parte do grande Muro de Berlim, que dividia a cidade. Vizinho à sede do Berlinale, festival de cinema local, o mercado do bairro é demarcado por um enorme tobogã de neve, onde dá para descer deslizando em um pneu, feito criança.

Ponche, salsichão, chucrute e torta de maçã
Esqueça a paçoca, a pamonha ou o hot dog. Tanto em Berlim quanto em Viena, a comilança nas barracas natalinas capricha nas castanhas assadas, nas tortas de maçã, em cheirosos biscoitos na forma de bonecos de neve, e, claro, nos variados tipos de salsichão, o wurst.

Em Berlim, a salsicha de cada esquina é o curry wurst, servido com molho de tomate e curry. Já na Áustria, a versão mais pedida é a käzekrainer, molhadinha e recheada com queijo. Nos dois casos, elas podem vir com pão ou fatiadas no prato. O acompanhamento costuma ser feito com batatas ou chucrute – além de saborosas mostardas e catchups, às vezes caseiros.

 

Curry wurst, o salsichão preferido dos berlinenses (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

Curry wurst, o salsichão preferido dos berlinenses (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Vinho quente (o glühwein) e cerveja são servidos por todo lado, assim como criativos sabores de ponches quentes, como os de maçã, frutas vermelhas, laranja e coco. Nos mercados de Natal requintados – como o Gendarmenmarkt, o número 1 de Berlim, restaurantes renomados como o Lutter und Wegner montam filiais itinerantes. É a oportunidade de comer pratos como o wienerschnitzel, a milanesa de porco.

Em Viena, algumas barracas especiais preparam o famoso goulash, parecido com nossa carne de panela. Para sobremesa, o bolo de chocolate sachertorte, doce amado pelos vienenses antes, durante e depois do Natal.

 

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Mais informações:

VIENA
www.viena.info
Mercado Wiener Adventzauber: www.christkindlmarkt.at
Mercado em Schönbrunn: www.weihnachtsmarkt.co.at
Museu Belvedere: www.belvedere.at
Café Landtmann: www.landtmann.at
Palácio Schönbrunn: www.schoenbrunn.at
Suíte da Imperatriz Sissi: www.thesuite.at

BERLIM
www.visitBerlin.de
Mercado Gendarmenmarkt: www.gendarmenmarktberlin.de
Mercado Winterwelt: www.winterwelt-berlin.de
Restaurante Lutter & Wegner: www.l-w-berlin.de

 

CÓDIGO DE ÉTICA SAME SAME:

O jornalista Daniel Nunes Gonçalves viajou a convite dos órgãos oficiais de turismo de Berlim e Viena. Esta reportagem foi publicada originalmente no UOL.

 
Publicado em:
UOL - Universo On Line


Data:
Dezembro de 2014

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