De um lado, o boi branco Garantido, atual campeão, com um histórico de 29 títulos e uma massa vermelha em polvorosa nas arquibancadas. No campo oposto, o touro negro Caprichoso, dono de 20 troféus de primeiro colocado e impulsionado pelos gritos das pessoas da torcida azul. Poucas rivalidades são levadas tão a sério, nas competições do Brasil, quanto o enfrentamento dos dois times culturais da cidade de Parintins, a segunda mais populosa do estado do Amazonas, com 110 mil habitantes. Herdeiros de uma tradição que completou 100 anos em 2013, eles passam o ano se preparando para o duelo de todo último fim de semana de junho, que atrai ao menos 70.000 forasteiros à cidade. Nessa disputa para ver qual apresenta a performance de maior excelência, quem mais se extasia é o público, que assiste a um espetáculo de folclore sem igual no país.

 

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Em 2014, a edição 49 da maior festa da Amazônia deve ter suas dimensões de alegria multiplicadas. No mesmo fim de semana de 27 a 29 de junho, o Brasil vai estar acompanhando quatro jogos das oitavas de final da Copa do Mundo de futebol. Ou seja: se acontecer o mesmo que em 2013, quando o centenário do boi-bumbá amazônico coincidiu com os jogos da Copa das Confederações, uma multidão de apaixonados vai ter motivos de sobra para vibrar. Enquanto dentro no Bumbódromo de Parintins repete-se a guerra folclórica dos bois, as disputas dos jogos da Copa vão dominar o lado externo, tanto diante dos telões em frente à arena quanto em cada uma das tevês voltadas para a rua nos bares à beira-rio e nas casas pintadas de vermelho ou azul – e, em 2014, também verde-e-amarelo. Quando é dado o pontapé inicial na primeira performance de um dos bois, na noite de sexta-feira, diante das 16,5 mil pessoas que lotam a plateia, uma rajada de fogos de artifício faz os dançarinos em campo se arrepiarem.

 

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Conforme a tradição existente desde 1913, quando as primeiras brincadeiras de boi-bumbá começaram a acontecer nas ruas de Parintins, começa então a contação teatral e musical de várias lendas da Amazônia. Uma delas se repete todo ano: era uma vez um fazendeiro que presenteou sua filha com um boi; o bicho ficou aos cuidados do vaqueiro Pai Francisco, que o matou para satisfazer o desejo de sua esposa grávida, Mãe Catirina; para não ser punido pelo patrão, que ficou furioso, o vaqueiro conseguiu ressuscitar o boi com a ajuda de um pajé. A exuberância com que são apresentados esses e tantos outros personagens de destaque, aqui chamados de itens, inclui carros alegóricos gigantescos, fantasias com penas artificiais coloridas e performances musicais das mais contagiantes.

 

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Ainda que seja frequentemente associada ao Carnaval, a festa dos bois de Parintins é bem distinta daquela da Marquês de Sapucaí carioca ou do Sambódromo paulistano. Aqui, são só dois rivais se enfrentando em uma arena – totalmente modernizada no ano passado – cada um com 2h30 de performance a cada uma das três noites seguidas. Desde que a brincadeira de ressuscitar o boi do patrão virou uma festa grande, em 1965, surgiu um protocolo que aumenta o desafio de cada um dos lados da batalha: enquanto uma agremiação se apresenta, a outra tem de ficar quietinha no seu semi-círculo, sob a pena de perder pontos caso faça barulho. Até a luz sobre a arquibancada rival é reduzida para aumentar os holofotes sobre quem se apresenta. Dá para imaginar a tensão de ficar vendo, em silêncio e na escuridão, quão espetacular é o time adversário?

 

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Profissionalizada graças ao televisionamento e ao patrocínio de grandes marcas (que até mudam as cores de seus logotipos para as cores vermelha e azul só nos dias de festa), a ópera da floresta virou produto for-export. Não apenas por atrair muitos estrangeiros. Técnicos responsáveis pelos carros alegóricos hi-tec de Parintins passaram a ser contratados para trabalhar nos milionários carnavais de Rio e São Paulo. Durante o fim de semana do grande musical a céu aberto, os números todos de Parintins sobem às alturas. Acredita-se que 15 mil empregos temporários sejam criados. Só os tricicleiros, que levam as pessoas em bicicletas com passageiros para cima e para baixo, somam mais de 1300 durante o evento.

 

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Se num clássico de bola no pé a força do povo na arquibancada pode empurrar os 11 jogadores para a vitória, não acontece diferente no Bumbódromo. Os 1000 integrantes de cada boi (entre eles, 400 músicos) precisam da atuação de sua galera (como são chamadas as torcidas em Parintins): o público se destaca como um dos 22 itens avaliados pelos seis juízes. Dois animadores de torcida orientam a multidão a repetir seus passos de dança, o levantamento de pompons, placas e qualquer outro adereço-surpresa. Os outros itens avaliados referem-se a personagens típicos como a índia Cunhã-Poranga e o Amo de Boi (tão importantes quanto, por exemplo, a rainha da bateria ou o mestre sala de uma escola de samba). Nenhum item, no entanto, tem performance mais valiosa que a estrela da festa, o boi. Chegue ele flutuando em um balão ou suspenso por um guindaste, terá sua entrada triunfal acompanhada por urros emocionados.

 

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Com pouco mais de meia dúzia de hospedarias e uma lista tímida de restaurantes e bares para atender a tantos forasteiros, a ilha Tupinabarana, onde fica Parintins, se vê invadida por mais de trezentos barcos. Como não há estradas na região e os voos costumam ficar lotados (reserve logo, pois muita gente faz bate-e-volta a partir de Manaus), a maioria dos espectadores encara cerca de 18 horas de transporte fluvial pelo Rio Amazonas. Às vezes eles dormem em redes, seguindo o autêntico jeito amazônico de viajar. O clima, tanto nas embarcações quanto nas casas alugadas para grupos de amigos, é de festa. Especialmente quando, na segunda-feira seguinte, sai o resultado. Ainda que cada boi tenha arrancado gritos, como os de gol, nos três dias de performance, o barulho da galera que lota a arquibancada na segunda-feira para ouvir o resultado só pode ser comparado a um outro: o da conquista de um título de Copa do Mundo.

 

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Publicado em:
Revista da Azul


Data:
Junho 2014

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