Ainda que o clichê repita, há milênios, que todos os caminhos levam a Roma, não é raro que muitos viajantes que chegam ao museu urbano a céu aberto mais espetacular do planeta fiquem sem saber que rumo tomar diante de tantas rotas possíveis.

 

Pordo Sol DSC00502

A da Roma original, que abriga o Coliseu e viveu a saga dos imperadores que viraram mitos? Ou a via da Roma cristã, do Vaticano e suas igrejas majestosas? Talvez a Roma das artes, da Renascença e do Barroco, embelezada por Da Vinci, Michelangelo, Rafael e Bernini? Vá por nós: comece do princípio. Em pleno centro da vibrante capital italiana do século 21, resquícios vivos preservados nos subterrâneos ou acima da superfície remontam à fundação da Roma Antiga, em 753 a.C., e recontam sua história até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. Em quatro dias, pode-se voltar no tempo e viajar por aqueles 12 séculos revolucionários quando Roma comandava o mundo com seus gladiadores ferozes, obras faraônicas, batalhas gloriosas e imperadores megalômanos.

 

Fórum e Palatino

Fórum e Palatino

 

No berço dos filhos da loba

Nessa viagem ao passado, decolemos primeiro para o Monte Palatino, uma das sete colinas da região e local onde acredita-se que Roma teria sido fundada, em 753 a.C., por um sujeito de nome Rômulo. A lenda contada pelos guias que atuam nas ruínas do Palatino, coração turístico da cidade (que fica diante do Coliseu), diz que Rômulo e seu irmão gêmeo Remo teriam sido criados por uma loba. Os guias esclarecem, porém, que a palavra loba também era usada para definir prostituta. Seja animal ou pouco nobre a origem da mãe, a história original seria manchada de qualquer forma pelo fato de Rômulo ter matado Remo. Passaram-se sete séculos entre a liderança de Rômulo, os reinados etruscos e a ascensão de Roma no tempo de Júlio César – o ditador que fez a passagem da república para o império e morreu esfaqueado por senadores em 44 a.C.. Dos primórdios da fundação, no século 8 a.C., o Palatino guarda muros originais, a cabana onde Remo e Rômulo cresceram, e, no pé do morro, a gruta onde os gêmeos teriam sido aleitados pela misteriosa loba. Entre o Palatino e o Monte Aventino está outro resquício pré-imperial: o Circus Maximus, iniciado no século 7 a.C., era uma arena onde 250 mil espectadores assistiam a corridas de bigas, uma das muitas influências dos gregos, que ditavam moda e cultura na época.

 

Fórum de Augusto com projeção multidimensional

Fórum de Augusto com projeção multidimensional

Onde fervia o umbigo do mundo

Entre o Palatino e o Monte Capitolino, hoje sede dos Museus Capitolinos, espalha-se uma sequência de relíquias arquitetônicas: o Fórum Romano, centro nervoso onde pulsavam a vida política, comercial e religiosa de Roma. Pela Via Sacra, sua artéria principal, desfilaram Júlio César e uma série de imperadores. A começar por Augusto (66 a.C. – 14 d.C.), herdeiro adotivo de César e que ficou 44 anos no trono. Tanto a casa onde Augusto viveu quanto a de Lívia, sua terceira esposa, ainda podem ser conhecidas no Palatino – embora os afrescos da de Lívia tenham ido para o imperdível museu Palazzo Massimo Alle Terme. Para comemorar os 2.000 anos do primeiro imperador, um espetáculo multimídia tem contado sua trajetória e reproduzido virtualmente prédios antigos todas as noites, até 18 de setembro, no Fórum de Augusto. Além dessa, outras construções do líder estão espalhadas pela cidade: o Ara Pacis, imenso altar esculpido em mármore em 9 a.C.; as ruínas do belo Teatro Di Marcello, de 11 a.C.; e o Panteão, de 27 a.C., um impressionante templo politeísta que viria a ser transformado em igreja cristã. Foi na gestão de Augusto que nasceu um líder chamado de Jesus Cristo, cujos seguidores foram duramente perseguidos pelo imperadores seguintes, como o polêmico Nero (37 d.C. – 68 d.C). Ainda que tenham atribuído a ele o famoso incêndio que destruiu Roma em 64 d.C., estudos recentes questionam o fato. Nero teria, ainda, mandado matar cristãos sob a acusação de iniciarem o fogo. Enlouquecido, matou a mãe e se suicidou.

 

Coliseu visto de cima (e agora com subterrâneo aberto a visitação)

Coliseu visto de cima (e agora com subterrâneo aberto a visitação)

 

Os guardiões dos subterrâneos

Cartão-postal romano por excelência, o Coliseu foi assim batizado em referência ao Colosso di Nerone, estátua de bronze colossal com mais de 30 metros de altura que Nero mandou fazer para si. Ela fazia parte da Domus Aurea, a gigantesca casa dourada do imperador (cujo interior está fechado para restauração). Na tentativa de apagar os vestígios da megalomania do predecessor, o imperador Vespasiano (9 d.C. – 79 d.C.) decidiu construir ali um anfiteatro para 50 mil pessoas. Esse cenário de espetáculos, sacrifícios de animais e batalhas de gladiadores só foi inaugurado em 80 d.C. por Tito (39 d.C.– 81 d.C.), seu filho e sucessor (o Arco de Tito, no fórum, é em sua homenagem). Durante cem dias e cem noites, 5.000 animais foram mortos. Parada favorita dos turistas, o Coliseu ficou mais emocionante desde que foi aberto para visitas guiadas, em 2010, o Hypogeum, ala subterrânea da arena onde lutadores e bichos esperavam seu sacrifício. Ele se soma a outras experiências fantásticas que os exploradores da Roma Antiga podem ter a 15 metros – ou mais – de profundidade. Perto do Coliseu, dá para descer ao templo pagão no subsolo da Basilica di San Clemente ou andar pelos corredores da Case Romane del Celio, com quartos dos séculos 2 a 4 d.C. sob a Basilica Santi Giovanni i Paolo. Mas nenhum tour às profundezas da cidade à beira das águas do Rio Tibre surpreende mais que o do Palazzo Valentini. Aberto em 2010, o passeio multimídia pré-agendado, de 1h30, acontece sobre um chão de vidro que protege mansões com mosaicos e afrescos milenares.

 

Teatro Marcelo

Teatro Marcelo

Relíquias do auge do Império

Comandante do Império Romano em seu apogeu, o imperador Trajano (53 d.C. – 117 d.C.) bateu o recorde de atrações do Coliseu: um de seus eventos durou 117 dias e envolveu 9 mil gladiadores e 10 mil animais. A grandeza de Trajano, porém, ia além. Foi ele quem conquistou o Oriente e expandiu os limites máximos do império, que em sua gestão avançava da atual Inglaterra à Síria, dos Países Baixos ao Norte da África. Também contratou o melhor arquiteto da época para modernizar a cidade. Três de suas construções resistem: o Fórum de Trajano, inaugurado em 113 d.C.; a Coluna de Trajano, com esculturas em mármore que sobem a 30 metros de altura (e onde suas cinzas foram levadas); e o Mercado de Trajano, enorme estrutura semi-circular de tijolos que abrigava lojas e tabernas, sede do Museu dos Fóruns Imperiais. Coube a Adriano (76 d.C. – 138 d.C.), seu sobrinho adotado e sucessor, a tarefa de viajar para erguer muralhas isolando o império contra ataques de bárbaros – como eram chamados todos os que viviam fora dos limites de Roma. Hoje, os vestígios de Adriano na capital estão no desenho do Panteão, reconstruído depois de sucumbir a um incêndio e a um raio; no Castelo Santo Ângelo, onde antes ficava seu mausoléu e que agora oferece uma linda vista do por-do-sol da cidade); e na Ponte Santo Ângelo, erguida em 136 para cruzar o Rio Tibre. Mas é em Tívoli, a 30 quilômetros do Centro, que repousa sua maior obra: a grandiosa mansão de Villa Adriana – que até novembro exibe uma exposição especial sobre o imperador.

 

Destaque do acervo do Palazzo Massimo

Destaque do acervo do Palazzo Massimo

Termas, pedaladas e catacumbas

É preciso se afastar do Centro para descobrir outras maravilhas do período imperial. Perto da estação de trem Roma Termini ficam as reminiscências das Termas de Diocleciano, inauguradas em 306 d.C. Os maiores banhos públicos da Roma Antiga tinham capacidade para 3.000 pessoas. Hoje transformadas em parte do Museu Nacional Romano, elas foram batizadas em homenagem ao Imperador Diocleciano (245 d.C. – 311 d.C.). Foi ele quem dividira o gigantesco Império Romano, em 285 d.C., nas partes ocidental e oriental. No lado oposto da Roma do século 21 ficam ruínas de banhos ainda mais preservadas, as Termas do Imperador Caracalla (188 d.C – 217 d.C), erguidas em 216 d.C. Elas estão no caminho para a Via Appia Antica, lendária estrada que abriga as catacumbas de São Calixto e de São Sebastião, corredores subterrâneos com milhares de tumbas. Um dos passeios mais agradáveis da Roma contemporânea é de bicicleta pela charmosa Via Appia Antica: chega-se ali em meia hora de pedalada desde o Arco de Constantino, de 315 d.C., em frente ao Coliseu. O Imperador Constantino (272 d.C. – 337 d.C.), por sinal, encerra nossa jornada pela história. Famoso por ter liberado, em 313 d.C., o culto ao cristianismo, ele se instalou na capital do Império Romano do Oriente, em Bizâncio (que viria a se chamar Constantinopla e depois Istambul). Enquanto o Império do Ocidente, sediado em Roma, sucumbia às invasões bárbaras em 476 d.C., o oriental – ou Bizantino – sobreviveria por mais mil anos, até 1453. Mas esse é um capítulo de outra história.

 

Bike para catacumbas DSC00442

 

Pílulas

Artista-referência do Barroco, Gian Lorenzo Bernini esculpiu a Fontana di Trevi, inativa para restauro até 2015, e a Fontana del Tritone, localizada diante do clássico hotel Bernini Bristol – cenário do filme e do livro O Código Da Vinci.

 

Além do belo mirante, o Monte Aventino esconde um segredo fascinante de ser descoberto à noite: a incrível vista que se tem da cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, a partir do buraco da fechadura do Priorato dei Cavalieri di Malta.

 

Ficam no entorno do Panteão duas paradas saborosas: a famosa Gelateria Giolitti, com longas filas para tomar o pastoso sorvete italiano, e a pequena Enoteca il Goccetto, onde os romanos degustam bons vinhos e petiscos.

 

Sorveteria DSC00484

Água potável é um bem público gratuito de Roma há séculos. Cerca de 2.500 dessas torneiras conectadas a fontes naturais, as nasones, estão espalhadas pela cidade. Não esqueça de carregar sua garrafinha para enchê-las durante o passeio.

 

Assim como o castelo, fica do lá de lá do Rio Tibre (ou Tevere, em italiano) o bairro Trastevere, centro da vida noturna romana. Para uma boa comida romana sem foco em turistas, faça como Michele Obama e siga ao Ristorante San Michele.

 

Quem optar por fazer o tour guiado em português nas Catacumbas de São Calixto vai conhecer o paulista Antonio Pajola. Há 8 anos em Roma, o simpático padre salesiano orienta os visitantes entre as tumbas do quarto andar subterrâneo.

 

Ruas de Roma

Ruas de Roma

Serviço:

ROMA

 

PARA FICAR

HOTEL BERNINI BRISTOL

Piazza Barberini, 23; berninibristol.com

 

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PARA COMER

ENOTECA IL GOCCETTO

Via dei Banchi Vecchi, 14; ilgoccetto.com

 

GELATERIA GIOLITTI

Via Uffici del Vicario, 40; giolitti.it

 

RISTORANTE SAN MICHELE

Lungotevere Ripa, 7; ristorantesanmichele.com

 

PARA VISITAR

ARA PACIS

Lungotevere in Augusta; arapacis.it

 

Subterrâneos da Basílica San Clemente

Subterrâneos da Basílica San Clemente

BASILICA DI SAN CLEMENTE

Via Labicana, 95; basilicasanclemente.com

 

CASE ROMANE DI CELIO

Clivo di Scauro; caseromane.it

 

CASTELO SANTO ÂNGELO

Lungotevere Castello, 50; castelsantangelo.com

 

Forte Santo Ângelo, que abriga o Memorial do Imperador Adriano

Forte Santo Ângelo, que abriga o Memorial do Imperador Adriano

 

CATACUMBAS DE SÃO CALIXTO

Via Appia Antica, 110/126; catacombe.roma.it

 

CATACUMBAS DE SÃO SEBASTIÃO

Via Appia Antica, 116; catacombe.org

 

COLISEU

Piazza del Colosseo, 1; turismoroma.it

 

FÓRUM DE AUGUSTO

Via Alessandrina Tratto; viaggionelforodiaugusto.it

 

FÓRUM DE TRAJANO

Via dei Fori Imperiali

 

FÓRUM ROMANO

Via della Salaria Vecchia, 5/6; archeoroma.beniculturali.it

 

Vista geral do Fórum Romano

Vista geral do Fórum Romano

 

MERCADO DE TRAJANO

Via IV Novembre, 94; mercatiditraiano.it

 

PALATINO

Via di San Gregorio, 30; coopculture.it

 

PALAZZO MASSIMO ALLE TERME

largo di Villa Peretti, 1; archeoroma.beniculturali.it

 

PANTEÃO

Piazza della Rotonda; www.turismoroma.it

 

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Vista interna do Panteão

 

PRIORATO DEI CAVALIERI DI MALTA

Piazza dei Cavalieri di Malta; ordinedimaltaitalia.org

 

TEATRO DI MARCELLO

Via del Teatro di Marcello; turismoroma.it

 

MUSEUS CAPITOLINOS

Piazza del Campidoglio, 1; museicapitolini.org

 

PALAZZO VALENTINI

Via IV Novembre, 119/A; palazzovalentini.it

 

TERMAS DE CARACALLA

Viale delle Terme di Caracalla; archeorm.arti.beniculturali.it

 

TERMAS DE DIOCLECIANO

Viale Enrico De Nicola, 79; archeoroma.beniculturali.it

AGRADECIMENTOS: Danilo Morales e Pasion Italiana (pasionitaliana.com)

 

Termas de Diocleciano vistas de fora

Termas de Diocleciano vistas de fora

 

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Código de ética Same Same:

Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista TAM Nas Nuvens, edição de setembro de 2014.

As passagens e todas as despesas foram pagas pela TAM.

O Hotel Bernini Bristol ofereceu duas diárias grátis.

 

 

 

 

 

 
001_TNN81_Capa
Publicado em:
Revista TAM Nas Nuvens


Data:
Setembro/2014

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