Uma multidão de véus brancos se destaca na escuridão das ruas de terra de Lalibela como se levitasse silenciosamente. Jogo o foco da lanterna sobre meu relógio, que marca 4h30 da manhã, e em seguida ilumino as almas que caminham ao meu lado. São seguidores do cristianismo ortodoxo, que se instalou na Etiópia no século 4 d.C., e que têm o mesmo destino que eu: as igrejas escavadas em pedra, no século 12, nessa charmosa cidade de montanha no Norte do país. Pela quantidade de gente, parece que boa parte dos 15 mil lalibelenses, muitos deles moradores da zona rural, não se importa de sair de casa antes do nascer do sol. Afinal, na chamada Jerusalém africana, todo dia é dia de reza.

 

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Alguns amanheceres, como esse, merecem bençãos especiais. É o caso dos dias de santo, da Páscoa, do Natal e da Epifania, como é chamada a data em que Jesus Cristo teria sido batizado. Para os seguidores do cristianismo ortodoxo, que correspondem a quase metade da população do país, estas são datas auspiciosas para orar na terra santa etíope. Para minha sorte, sou levado pelo meu guia, Desew Weday, diácono há 15 anos, para pisar na igreja de Bet Maryam, que homenageia a mãe de Jesus, justamente no seu dia, o 21 da folhinha local. Com um calendário próprio, a Etiópia chama de dia 21 do sétimo mês de 2006 d.C. este dia que corresponde, na agenda ocidental dos seguidores do calendário gregoriano como eu, ao 30 de março de 2014.

 

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Ao avistarmos, da rua, o buraco de 11 metros onde foi escavada a igreja de Nossa Senhora, uma música chorosa entoada por vozes graves domina o ambiente. Os beatos e beatas de véu branco descem as escadas, tiram os sapatos e reverenciam o monolito beijando o chão ou a parede, ajoelhando-se ou simplesmente rezando com a testa colada na parede. Faz lembrar até o Muro das Lamentações da Jerusalém original. “Só homens podem cantar, e sempre em Ge’ez”, explica o guia Desew, referindo-se ao antigo alfabeto etíope que se tornou a língua litúrgica dos ortodoxos. O idioma oficial da Etiópia é outro, o amárico: este é o único país do mundo que o utiliza.

 

Bencao cruz

 

O sonho do rei santo.

Quem desvia – ou tropeça – nos calçados deixados no portal e adentra entre as colunas do prédio começa a ter uma ideia da proeza arquitetônica – descrita como “milagrosa” por muitos – empreendida pelo rei Gebre Mesqel Lalibela. Membro da dinastia Zagwe, que comandou a Etiópia entre o fim do século 12 e o início do 13, ele foi considerado santo e entrou para a história pela iniciativa de erigir esta e as outras dez casas de oração na então-chamada Roha, capital do império – e hoje cidade que leva seu nome. Não há registros exatos sobre quantas pessoas e quantos anos teriam sido necessários para realizar tal proeza. Diz a lenda que os humanos trabalhavam de dia enquanto à noite o serviço era dos anjos. A cultura oral repassada ao longo dos últimos oito séculos preservou outro mito que está na ponta da língua de qualquer guia de Lalibela. “Foi durante o tempo que passou em coma, após ter sido envenenado e quase morrido, que o rei Lalibela visitou Jerusalém em sonho”, conta Desew. “Ao acordar ele obedeceu a ordem de Deus e passou a construir as igrejas para fundar aqui a Nova Jerusalém.” Na época, em 1187, a Jerusalém original tinha sido tomada pelos muçulmanos.

 

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Dentro das grossas paredes da igreja de Bet Maryam, considerada a primeira a ser escavada, o cenário é único. Além do coral exclusivamente masculino, a divisão das pessoas em homens de um lado e mulheres de outro faz lembrar o protocolo dos judeus nas sinagogas, que imperava nas primeiras igrejas cristãs do planeta. Como não existem bancos para sentar, as pessoas se esparramam pelo chão – que não parece tão duro e frio por ser coberto por tapetes pesados. Na parte central do fundo, onde em uma igreja católica funcionaria um altar, há apenas uma cortina vermelha pesada, que esconde objetos cerimoniais só acessíveis a padres e bispos, exibidas ao público só nos festivais. Não há estátuas nas igrejas de Lalibela. Telas com pinturas coloridas seculares e traços peculiares (muitas vezes com Cristo e discípulos retratados como negros) fazem menção a Jesus e a Nossa Senhora ao lado das cortinas.

 

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Festivais são ímãs de peregrinos.

“Ainda que viajar à Etiópia pareça a volta a um mundo parado no tempo, em Lalibela as igrejas de pedra se mostram vivas, especialmente em rituais estonteantes como a Fasika, a Páscoa etíope”, descreve o fotógrafo Haroldo Castro, que acompanhou ali a celebração da ressurreição de Cristo em 2010. Idealizador da operadora Viajologia Expedições (www.viajologia.com.br), especializada em destinos exóticos como Mongólia e Namíbia, Castro desembarca em Lalibela nesta semana guiando 11 brasileiros. Eles estarão entre os milhares de peregrinos esperados para acompanhar, nas profundezas de santuários que jamais se tornaram peças estáticas de um museu, reverências marcantes como a vigília da noite de sábado, vivida com muita música e danças devocionais.

 

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Movimentação semelhante acontece em janeiro, nos outros dois grandes festivais da cidade. No dia 7 (do nosso calendário gregoriano), mais de 50.000 pessoas costumam festejar a Geena, o Natal local, em cerimônias solenes como o acendimento de velas à meia-noite. Já no dia 19 acontece o Timkat ou Epifania, quando o batismo de Jesus é lembrado por meio de rituais como banhos em água benta e procissões que seguem as tabots, réplicas da arca da aliança que toda igreja ortodoxa etíope possui. Acredita-se, por sinal, que a arca original, que teria abrigado a tábua dos dez mandamentos, encontra-se na cidade de Aksum, considerada tão sagrada quanto a quase vizinha Lalibela.

 

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Fé sólida como pedra.

Parecendo mais sólida que aquelas paredes sagradas, a fé do povo de Lalibela é demonstrada de forma intensa. Padres de mantos coloridos e coroas que fazem lembrar as dos reis passam pesadas cruzes ortodoxas no corpo dos fiéis que se amontoam para ganhar suas bençãos. Após semanas e mais semanas de jejum parcial, cristãos se esforçam para ter a chance de acender uma vela ou um incenso dentro das igrejas lotadas, para ganhar na testa o desenho de uma cruz feita com cinzas ou para pegar um pedaço do pão bento.

 

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Duas madrugadas depois da minha visita à Casa de Maria, acompanho um ritual semelhante na igreja de São Jorge, a mais famosa de Lalibela. No templo do santo guerreiro, me surpreendo com o prazer que muitos cristãos ortodoxos demonstram ao receber, na cara, fortes jatos d’água. Eles são jogados pelas mãos de uma criança que se ajoelha à beira de do tanque batismal localizado do lado de fora do templo. Os primeiros raios de sol tornam o ambiente especialmente mágico. Na Etiópia, o novo dia começa às 6 horas da manhã – e não a meia-noite, como no relógio ocidental. É quando, ao fim das primeiras orações matinais, a multidão de véus brancos começa a se dissipar, deixando as sagradas igrejas de pedra para seguir para casa por estradas poeirentas. É o início de um dia como qualquer outro.

 

Bale na poeira

 
Publicado em:
Jornal O Estado de Sao Paulo



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