Os olhos miram-se imóveis no espelho, queixos altos, mãos na cintura. Quando a professora bate palmas e o senhor na cadeira ao lado começa a dedilhar as cordas do violão, o grupo de alunas bailaoras arregaça as saias e passa a sapatear sincronicamente sobre saltos de 5 centímetros cravejados de pregos. Demarcado por um complexo ciclo rítmico de 12 compassos, o cruzar de pernas é acompanhado pelo balé aéreo de mãos e braços, que se dobram leves como penas. Mesmo compenetrada, a carioca Tatiana Bittencourt mantém o sorriso no rosto enquanto rodopia e faz dançar no ar seu xale, aqui chamado de mantón. Professora de dança no Rio de Janeiro, ela não disfarça a satisfação ao bailar na Amor de Dios, principal escola de flamenco de Madri e do mundo, onde circulam diariamente mil alunos, metade deles estrangeiros. “Esperei dois anos para voltar para cá e passar dois meses me aperfeiçoando”, contaria mais tarde. Em sua quarta viagem de imersão no universo flamenco da capital da Espanha, Tatiana se integrou a um batalhão de dançarinos dedicados a aprender ali, com 30 professores, as técnicas da principal expressão musical espanhola.

Naquele sábado de fevereiro, Tatiana tinha pressa. Ao fim da aula, caminhou rapidamente pelos corredores, escutando os sons de castanholas, cajóns e guitarras flamencas que ecoavam das 15 salas. Corria para não se atrasar para a apresentação de Farruquito. Você pode não conhecer Farruquito, um dos grandes nomes do bailado flamenco, ou o Tomatito, lenda viva dos violões. Mas naquela noite, madrilenhos e turistas admiradores de flamenco se dividiam para assistir às performances dos dois. Farruquito dançaria no Casa Patas, uma fundação composta por conservatório e restaurante que tem, nos fundos, um tablao, o tablado para apresentações de flamenco. Já Tomatito fecharia a série de cinco noites do 19º Festival Flamenco Caja Madrid (www.obrasocialcajamadrid.es), tocando para 1.100 pessoas na casa de espetáculos Teatro Circo Price, pertinho dos Museus do Prado e Reina Sofía. Em uma evidência de como o flamenco tem agitado o circuito cultural de Madri, o Guía del Ocio (www.guiadelocio.com/madrid), semanário de entretenimento vendido nas bancas de jornal, listava 18 apresentações naquela semana. E entre 4 de junho e 2 de julho, um festival ainda maior, o Suma Flamenca (www.madrid.org/sumaflamenca), deve mobilizar a cidade.

Aula de flamenco na escola Amor de Dios (fotos de Luis Maximiano)

PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Os estudiosos acreditam que o flamenco nasceu no século 15, na região de Andaluzia, sul da Espanha, e que a palavra venha de felag mengu, “camponês fugitivo” em árabe. Seria uma fusão da música dos ciganos que vinham do Norte da Índia com a dos mouros e judeus que já habitavam a região. Antes uma manifestação regional, ele só adquiriu o formato de performance artística no século 19, com a difusão de seus três pilares unidos: o cante, canções profundas que fazem lembrar uma prece muçulmana; o toque, melodia comandada por um violão especial, a guitarra flamenca; e o baile, a dança vigorosa que se assemelha a uma incorporação visceral. Em novembro de 2010, a Unesco o reconheceu como Patrimônio Imaterial da Humanidade. “Este título vai contribuir para que mais gente descubra esta arte viva”, comemora Carmen Linares, uma das divas do cante, que se apresentou no festival de fevereiro. Nascida no sul do país há 60 anos, ela se mudou para Madri em 1965 para trabalhar com flamenco. “Na Andaluzia está o berço, mas aqui se multiplicam os tablaos, os espetáculos, o público”, conta.

O movimento das casas flamencas evidencia essa retomada. Um exemplo é a recente reforma do Villa Rosa, na Plaza Santa Ana, um dos míticos cafés cantantes que sediaram a fase áurea do flamenco entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20, segundo o “flamencólogo” José Blas Veja, autor de 50 Años de Flamencologia – e proprietário do sebo Librería del Prado, pertinho da escola Amor de Dios. Preservando os belos azulejos de 1928, o Villa Rosa, que funcionava como discoteca nos últimos anos, reabre agora como restaurante com tablao. Já o Cardamomo, um bar popular proximo à Puerta del Sol, há dois anos incorporou shows flamencos em seu tablao, deixando as baladas para depois da meia-noite. Aos domingos, o Cardamomo se transforma para receber o público infantil com o espetáculo teatral El Bosque Flamenco – que já teve na plateia até a princesa das Astúrias, Letizia Ortiz, e suas duas filhas.

“Esta renovação é fundamental”, acredita o cantaor Miguel Poveda, revelação da Catalunha que se tornou um galã do flamenco e abriu o festival Caja Madrid. “Muitos ídolos morreram, outros talentos desistem porque esta é uma carreira difícil, especialmente em tempos de crise, mas temos de resistir.” O baixo-astral que assola parte da Europa em função dos problemas econômicos, por sinal, parece até combinar com muitas das letras flamencas, que choram dores de amor e injustiças sociais. Poveda chega a fazer sete shows por mês, mas lamenta não ganhar dinheiro como se cantasse música pop. “Com o flamenco eu nunca vou lotar uma Plaza de Toros, como faz o Julio Iglesias”, compara outro cantor do festival, o madrilenho Juan Valderrama. “Mas o flamenco é a voz do povo, tem um público fiel.” Filho do casal de cantaores Juanito Valderrama e Dolores Abril, ele acredita que o flamenco é mais complexo e nem sempre triste como o fado português ou o tango argentino. “O flamenco nasceu nesta eterna terra de trânsito que é a Espanha, e belisca todos, do Oriente ao Ocidente.”

TEM DUENDE NO TABLADO

Primeiro, entram os três violeiros. Depois, sobem ao palco os três cantaores e palmeros, demarcando o canto com as palmas das mãos. Quando as três bailaoras e o bailaor começam a bater os pés no palco, tem início um ritual que parece deixá-los em transe. Tocadores de olhos fechados, cantores com cara de sofrimento e o corpo de baile se expressando de forma dramática parecem cumprir o objetivo de despertar o “duende”. Assim a comunidade flamenca denomina a sensação inebriante causada pela harmonia no tablao, que emociona tanto os artistas quanto o público – como foi possível perceber em um noite lotada de estrangeiros, alguns às lágrimas, no Corral de la Morería. Fundado em 1956 e bem localizado na rua do imponente Palácio Real, o restaurante flamenco tem paredes cheias de quadros de antigas apresentações e de outra paixão espanhola, as touradas. Conseguir uma mesa perto do palco é fundamental para bem aproveitar a uma hora e meia de espetáculo. Caso contrário, a vista acaba sendo prejudicada pela circulação dos garçons – que servem menus-degustação de 43 a 99 euros, mais os cerca de 40 euros de couvert artístico. Apesar de caro, vale a pena.

Apreciada pelos turistas, a fórmula dos restaurantes com tablaos típicos de Madri consagrou também o Café de Chinitas, o Las Carboneras, o Clan e o El Corral de La Pacheca. Madrilenhos mais interessados na música que na comida preferem ir direto ao ponto no Cardamomo e no Las Tablas. Mais raras, é verdade, são as peñas flamencas, rodas informais em que não é falta de respeito interagir, por exemplo, cantando e batendo palmas. Com sorte, os mais notívagos podem ser convidados a descer ao porão do Candela, um bar underground onde a boemia flamenca se apresenta de improviso. Mas, com tamanha oferta, como decidir a qual tablao ir? “Mais importante que os lugares são os artistas”, ensina Joaquín San Juan, diretor da Amor de Dios. Como as casas revezam seu casting, é preciso checar a programação nos sites. “Se o elenco for desconhecido, pergunte para um amigo que entende”, recomenda. O próprio mural da escola, com dezenas de folders e cartazes de eventos, pode ser um ponto de partida.

TERRITÓRIO FLAMENCO

Criado em 1952, o Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios foi batizado com o nome da rua de um de seus primeiros endereços, localizado a 100 metros do atual. Fica sobre os corredores repletos de peças de jamón e cabeças de porco do Mercado de Antón Martín, mesmo nome do bairro, e acabou sendo responsável pela transformação de seu entorno em uma zona flamenca. Por todos os lados há lojas de sapatos – um par pode custar 160 euros – e roupas, como os longos vestidos cheios de babados e frente mais curta para mostrar os pés da bailaora. Em lojas como a Lola Almela, a brasileira Talita Sánchez gastou 500 euros em acessórios como flores de cabelo e habanicos (leques) para levar para suas alunas no Japão. “Moro em Madri mas rodo o mundo com o flamenco”, conta ela, cuja família organiza no Brasil, há dez anos, o Festival Internacional de Flamenco (www.festivalflamenco.com.br), que costuma acontecer em São Paulo e São José dos Campos.

É perto da espetacular Plaza Mayor, no entanto, que fica a loja que reúne a maior oferta de artigos do gênero. Na El Flamenco Vive, os irmãos David e Alberto Martinez vendem 2 mil títulos entre CDs e DVDs, mil livros, roupas, postais e guitarras flamencas de dez fabricantes. Se a intenção for investir nas cordas, nada melhor que agendar uma visita ao ateliê Mariano Conde, que nasceu como Conde Hermanos em 1915, para acompanhar a confecção do mesmo violão comprado por Tomatito e por Paco de Lúcia, maior divulgador mundial da guitarra flamenca. Comparado ao violão clássico, o de flamenco tem uma caixa mais estreita para intensificar os sons graves e metálicos. Depois de levar até quatro meses para ser confeccionada, uma peça pode custar 15 mil euros.

FLAMENCO FUSION E À LA BROADWAY

Exímio tocador de guitarra flamenca radicado em Madri, o brasileiro Fernando de La Rua é um dos agitadores deste circuito cultural. Além de se apresentar em tablaos e escolas, ele promove na capital espanhola o Projeto Brasil Flamenco, idealizado por sua mulher, a bailaora brasileira Yara Castro. Trata-se de encontros entre artistas espanhóis e brasileiros – como Tatiana Bittencourt, que dançava na Amor de Dios no início desta reportagem. Seu trabalho representa uma corrente contemporânea chamada de flamenco fusion. “Minha mão direita usa as técnicas do flamenco, mas a esquerda é bem brasileira”, brinca ele, que em fevereiro apresentou no pequeno Artebar La Latina o repertório de seu CD, com uma guitarra flamenca repleta de influências que vão do jazz ao chorinho. Em Madri ouve-se misturas de flamenco com rock e até com rap. Mas há espaço também para os musicais à la Broadway, com coreografias ensaiadas e bem diferentes do improviso dos tablaos. O espetáculo España Baila Flamenco costuma lotar os 300 lugares do Teatro Muñoz Seca, ao lado da movimentada Gran Vía, com 25 bailaores em cena – entre eles o brasileiro Fábio Rodriguez e a lendária Sara Lezana, que na década de 1960 contracenou com o bailaor Antonio Gades, o “Pelé” do flamenco, no cinema. Outras duas montagens da mesma companhia, Ballet Flamenco de Madrid, estão previstas para maio, em mais uma prova de que não há melhor lugar para se emocionar com este Patrimônio da Humanidade do que em Madri.

INFO: MADRI

+34 91

Artebar La Latina – Calle San Bruno 3, tel. 61 511-5627; Ballet Flamenco de Madrid – tel. 522-7903, www.balletflamencodemadrid.com; Café de Chinitas – Calle Torija 7,
tel. 559-5135, www.chinitas.com; Candela – Calle Olmo 2, tel. 467-3382; Cardamomo – Calle Echegaray 15, tel. 369-0757, www.cardamomo.es; Casa Patas – Calle Cañizares 10, tel. 369-0496, www.casapatas.com; Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios – Calle Santa Isabel 5/1º, tel. 360-0434,
www.amordedios.com; Clan – Calle Ronda de Toledo 20, tel. 528-8401, www.salaclan.com; Corral de la Morería – Calle Morería 17, tel. 365-8446, www corraldelamoreria.com; Corral de la Pacheca – Calle Juan Ramón Jiménez 26, tel. 353-0100, www.corraldelapacheca.com; El Flamenco Vive – Calle Conde de Lemos 7, tel. 547-3917,
www.elflamencovive.es; Las Carboneras – Plaza del Conde de Miranda 1, tel. 542-8677, www.tablaolascarboneras.com; Las Tablas – Plaza España 9, tel. 542-0520,
www.lastablasmadrid.com; Librería del Prado – Calle del Prado 5, tel. 429-6091, www.libreriadelprado.com; Lola Almela – Calle Duque de Fernán Nuñez 4, tel. 429-2897,
www.flamencololaalmela.com; Mariano Conde Guitarras – Calle Amnistía 1, tel. 521-8155; Villa Rosa – Plaza Santa Ana 15, tel. 521-3689

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS/SPECIAL THANKS TO: AECID Centro Cultural de España en São Paulo, www.ccebrasil.org.br; Cultyart (Festival Caja Madrid),

www.cultyart.com; Mirasierra Suites Hotel, Calle Alfredo Marqueríe 43, tel. 727-7900, www.jubanhoteles.com

 

 

 
capaespleve
Publicado em:
RED Report

Edição:
13

Data:
abril/maio de 2011

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