Vinte e oito retratos de mulheres e homens comuns vestindo trajes andinos tradicionais fizeram sucesso entre limenhos e estrangeiros, de abril a setembro, que visitaram a MATE, galeria que o fotógrafo Mario Testino abriu em Lima há um ano e meio. Numa alusão provocativa aos ensaios de alta costura que costuma produzir para publicações como Vanity Fair e Vogue, o peruano radicado em Londres batizou a mostra de “Alta Moda”. “Voltei às raízes para explorar a herança do meu país e mostrar ao mundo a riqueza de nossa cultura”, afirmou, satisfeito pelo sucesso da exposição tê-la feito migrar para Nova York, onde vai decorar as salas do Instituto Espanhol Rainha Sofia até 29 de março. A missão de Testino parece estar sendo cumprida: o mesmo requinte da vestimenta dos camponeses de origem inca que ele fotografou na cidade colonial de Cusco ao longo de cinco anos pode ser notado no artesanato e na gastronomia do país, o que tem consagrado o Peru como o destino latino favorito de viajantes em busca de experiências legítimas.

 

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Localizada a 1 hora de voo de Lima, Cusco tem aquele charme de cidades coloniais como Cartagena e Ouro Preto. Sua Plaza de Armas rodeada por sobrados avarandados típicos da arquitetura espanhola foi clicada por 2 milhões de turistas que ali chegaram em 2012 – mais que o dobro de oito anos atrás. Trajes típicos tais e quais aqueles registrados por Mario Testino continuam sendo orgulhosamente vestidos pela população. No entorno da cidade, que foi a capital do império inca, o mais importante da América do Sul entre 1438 e 1533, o chamado Vale Sagrado exibe uma série riquíssima de sítios arqueológicos, entre os quais se destaca o mais famoso do continente, Machu Picchu. Mesmo sem shopping-centers, parques temáticos ou atrativos artificiais,  Cusco vê sua infra-estrutura de turismo ganhar cada vez mais novos hotéis, restaurantes e museus. Com uma peculiaridade: a maioria dos investimentos foca no turismo de primeira linha.

 

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

É na hotelaria que essa vocação para atender o viajante exigente fica mais evidente. Em 2013,  o Palácio del Inka, que surgiu nos anos 1980 sob a bandeira Libertador como o primeiro cinco-estrelas da cidade, entrou para a rede Luxury Collection Hotel depois de uma reforma de 15 milhões de dólares. Com quadros originais da famosa Escuela Cusqueña nas paredes, tetos pintados à mão e muros incas originais em sua estrutura, ele pertence ao seleto grupo de seis hotéis top que se destacam entre as 94 hospedarias de Cusco. “A elitização do turismo no Peru começou há apenas 10 anos e aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a valorizar os destinos mais autênticos”, explica Patricio Zucconi Astete, veterano do turismo local. Ele gerencia atualmente o Miraflores Park, de Lima, unidade da rede de luxo Orient-Express, que detém na região de Cusco nada menos que 4 unidades para hospedagem de alto nível.

 

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

No primeiro semestre de 2013, uma comitiva de 60 hóspedes da TV Globo escolheu o mais pomposo deles, o Monastério, um antigo mosteiro do século 17, para abrigar o elenco e a equipe de apoio da novela Amor à Vida. Nos jantares, Paolla Oliveira e seus colegas puderam assistir às apresentações de ópera que tinham no elenco Angela Merina, respeitada como melhor soprano do Peru. Mais moderno, o vizinho Palácio Nazarenas conta com habitações com chão do banheiro aquecido e oxigênio para amenizar o desconforto da altitude – Cusco está 3400 metros acima do nível do mar, 2500 metros mais alta que São Paulo. Único hotel que desfruta do privilégio de ficar a 20 passos da entrada de Machu Picchu, o Sanctuary Lodge costuma ter uma taxa de ocupação invejável, com média anual de 80 por cento (o que significa que mesmo na temporada das chuvas, de novembro a março, o movimento continua intenso). Mas é na viagem de trem de luxo entre Cusco e Machu Picchu que está o créme de la crème da grife: a jornada dá direito a jantar, vinhos e espumantes, aulas de pisco sour e música ao vivo no trem Hiram Bingham ­– batizado em homenagem ao americano que, em 1911, descobriu Machu Picchu.

 

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Vem das relíquias encontradas pela equipe de Bingham, por sinal, outra das boas novidades de Cusco: o museu Machu Picchu Casa Concha. Inaugurado em 2011, ele conta com 366 peças arqueológicas incas que estiveram por um século no Museu de História Natural de Peabody, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E soma-se a outros museus de boa curadoria da cidade, entre eles o de Arte Precolombino, que pertence ao grupo do Museo Larco, de Lima, dono da mais fina coleção de objetos de cerâmica, ouro e prata do Peru antigo. Suas peças inspiram o trabalho da designer de jóias  Maria Elena Guevara, proprietária da Inka Treasure, rede com nada menos que 9 joalherias em Cusco. “O Peru é o segundo maior exportador de prata do mundo, só perde para o México”, explica. “Temos o privilégio de trabalhar com a prata de melhor qualidade, além de pedras raras do país, como as de crisocola, a turquesa peruana”, conta a empresária, que já atendeu clientes como Bill Gates, Dalai Lama e Antônio Fagundes. Uma estátua de um guerreiro mochica que brilha em uma de suas vitrines e levou 3 meses para ser esculpida não sai por menos de 8.500 dólares.

 

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Por preços menos salgados que os de São Paulo ou Rio de Janeiro, os bons restaurantes de Cusco são exemplos da gastronomia mais respeitada da América Latina na atualidade. Embora já seja sócio do Chicha, considerado o melhor restaurante da cidade, o embaixador da culinária peruana Gastón Acurio se prepara para abrir uma segunda casa em breve. Ele é o dono do Astrid & Gastón, de Lima, que em setembro renovou seus louros como o número 1 entre os 50 melhores da América Latina segundo os críticos da revista inglesa Restaurant. Hoje é difícil jantar sem reserva no Chicha, que tem esse nome em homenagem a uma bebida de origem inca, normalmente feita de milho fermentado. Uma vez à mesa, os comensais degustam receitas desenvolvidas com técnicas andinas e asiáticas. Os ceviches abrem o paladar para clássicos como o anticucho – ou espetinho ­– de coração de vaca e o lomo saltado, filé de carne frito no estilo chinês.

 

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Mas é no vestuário que os turistas – 126 mil deles vindos do Brasil, segundo dados de 2012 da PromPeru, órgão governamental que promove o turismo do país – investem seus soles com maior custo-benefício. É claro que os gorros, suéteres e cachecóis coloridos, como aqueles clicados por Mario Testino, podem ser encontrados em cada esquina com tecidos e preços populares. Quem visita lojas locais renomadas como a Sol Alpaca e a Golden Alpaca, no entanto, descobre que vale a pena pagar mais pelos raríssimos tecidos de vicunha ou de baby alpaca – esses feitos da lã dos filhotes de alguns dos bichos mais avistados nessas alturas dos Andes. “Um gorro de qualidade não vai custar menos que uns 50 reais, mas vale a pena”, atesta a advogada Thalita Rosa, que viajou com o namorado, o engenheiro Mateus Carmona, em junho. “Contratamos um motorista exclusivo para explorar os arredores, comemos muito bem e ficamos fascinados com a riqueza das tradições do Peru”, conta Thalita, que voltou de viagem com outra recordação mais que especial. Foi nas alturas do Wayna Picchu, a maior montanha diante de Machu Picchu, que Matheus lhe surpreendeu com um par de alianças e um pedido de casamento. E deixou a experiência de conhecer o Peru ainda mais inesquecível.

 

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

 

Para ver a reportagem como publicada na Veja Luxo, inclusive com fotos de Mario Testino, baixe o PDF.

 

SERVIÇO:

CHICHA: www.chicha.com.pe

GOLDEN ALPACA: Plaza de Armas, 151, tel. +51 84 25-1724

INKA TREASURE: www.incatreasure.com.br

MACHU PICCHU: www.machupicchu.gob.pe

MATE (LIMA): www.mate.pe

MIRAFLORES PARK HOTEL (LIMA): www.miraflorespark.com

MONASTÉRIO: www.monasteriohotel.com

MUSEU DE ARTE PRECOLOMBINO: www.map.museolarco.org

MUSEU MACHU PICCHU CASA CONCHA: www.cuscoperu.com

PALÁCIO DEL INKA: www.starwoodhotels.com

PALÁCIO NAZARENAS: www.palacionazarenas.com

SANCTUARY LODGE: www.sanctuarylodgehotel.com

SOL ALPACA: www.solalpaca.com

TREM HIRAM BINGHAM: www.orient-express.com

 
Publicado em:
Revista VEJA LUXO


Data:
Dezembro/2013

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