Respirei fundo, olhei para o alto, apertei as fivelas da mochila com 12 quilos de carga e comecei a subir. A ladeira desaparecia montanha acima e o suor do meu rosto se misturava aos respingos do Passo das Lágrimas, um trecho da trilha banhado pelas gotas de uma cachoeira que começava no alto dos paredões de pedra com 800 metros de altura e, dispersa pelo vento, quase não tocava o chão. Estávamos no terceiro dia de um trekking planejado para durar uma semana, e havia 4 horas que eu usava pernas e braços para seguir despenhadeiro acima, me apoiando nas árvores daquele bosque espetacular. Mal acreditei quando meu grupo atingiu a superfície plana do topo, a quase 3 mil metros de altitude, em meio a nuvens que davam um ar misterioso àquele cenário raro. Entre as rochas estranhas do Monte Roraima eu notei que, na escalada de um tepui, alcançar o cume não significa chegar ao fim da linha. Aquele era, sim, o verdadeiro início de uma exploração.

 

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A aventura havia começado bem antes daquela pirambeira decorada por bromélias, orquídeas e espécies de plantas que só existem naquele pedaço pitoresco do planeta ― a região da Gran Sabana, onde o Norte do Brasil faz divisa com a Venezuela e a Guiana. Havíamos voado de Manaus para Boa Vista, capital do estado de Roraima, a tempo de participar, 24 horas antes da partida, de um briefing dos 12 expedicionários do nosso grupo (cinco homens e sete mulheres). De lá, cruzamos de carro a fronteira venezuelana, após 3 horas de viagem, até encontrar, na cidade de Santa Elena de Uairén, nossos dois guias locais, Leo Tarolla e Tirso Leiva. “Mais 1h30 de carro, dessa vez em veículos 4×4 por estrada de terra, e chegaremos ao povoado de Paraitepuy”, avisou Leo, um grandalhão místico que há oito anos conduz andarilhos ao cume. Ponto de partida para os clássicos trekkings de seis, sete ou oito dias pelo Monte Roraima, o vilarejo abriga um posto do Inparques, órgão venezuelano que administra o Parque Nacional Canaima ― onde está o único acesso conhecido ao morro, pelo lado sul. Registrada nossa entrada, conhecemos alguns dos 300 moradores indígenas do lugar, os chamados pemons, todos da etnia taurepang. Oito deles seriam responsáveis por carregar nossas barracas e preparar nossa comida. Pé ante pé, iniciamos os 15 quilômetros do primeiro dia.

 

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Tanto os taurepangs como os índios de outras etnias da região ― como os macuxis e os ingarikós ― acreditam que o Monte Roraima é o lar do deus Makunáima (mito que inspirou o escritor paulista Mário de Andrade a criar seu famoso personagem Macunaíma). Visto de Paraitepuy, que fica a 1.300 metros de altitude, o suntuoso Roraima impõe respeito com seus 34 quilômetros quadrados como se fosse uma divindade: distante, alto demais, aparentemente inalcançável ― tanto que só no fim do século 19 ele foi explorado pela primeira vez. Trata-se de um legítimo tepui, assim como o vizinho Kukenan e outras 20 formações do parque. Tepuis são mesetas com paredes abruptas e topos achatados reconhecidas como as formações expostas mais antigas da Terra: datam do período pré-cambriano, que se iniciou há 4,5 bilhões de anos. Sua aparência pré-histórica inspirou relatos como o do livro O Mundo Perdido, escrito há um século pelo escocês Arthur Conan Doyle (criador do detetive Sherlock Holmes), e serviu como cenário para a série Jurassic Park e a animação Up Altas Aventuras.

Embora nosso imaginário esperasse encontrar logo aquele território de outro planeta, onde um dinossauro poderia surgir a qualquer momento por trás das brumas constantes, não foi isso o que os dois dias iniciais nos reservaram. Os sobes e desces eram suaves, bucólicos riachos apareciam a cada hora, uma igrejinha cuidada pelos pemons decorava a savana e o céu azul com sol de menos de 30 graus desmistificou a fama de lugar com temperatura inconstante e imprevisível: até o arco-íris deu as boas-vindas aos 70 viajantes que partiram da vila indígena naquele sábado, dia 29. Tanto o primeiro pernoite, à beira do Rio Tök (lê-se “Tek”), quanto o segundo, depois de mais 8 quilômetros, no Acampamento Base, a 1.850 metros de altitude, também foram relativamente confortáveis (apesar dos persistentes insetos chamados puri-puris). Em barracões cobertos, os jantares e cafés da manhã incluíram trutas, massas, sopas e arepas venezuelanas ― “o melhor da autêntica comida roraimera”, como brincou o carismático guia Tirso, que celebrava sua 30a ida ao topo. Riachos de água gelada para o banho não ficavam distantes. E até os “banheiros” funcionaram com uma lona ou uma barraca protegendo a intimidade ― luxo que não teríamos no cume. Todos os dejetos orgânicos e o lixo produzido na excursão seriam transportados de volta pelos carregadores, no final do passeio, até sua aldeia.

 

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Cenário jurássico

Até que chegou o terceiro dia, o do Passo das Lágrimas, demandando uma “escalaminhada” quase vertical sobre pedras escorregadias à beira do paredão rochoso. Toda a expectativa para descobrir o que havia no topo, a mais de 2.700 metros, se transformou em estupefação. Surgia diante de nós um reino de vastidão, silêncio, delicadeza. As enormes rochas erodidas se assemelhavam a rostos de guardiões indígenas (a primeira delas, segundo os nativos, era o próprio Makunáima), a naves espaciais, castelos mágicos, cachorros bravos como os do filme Up, aos pterodáctilos de Jurassic Park. Em vez de uma floresta tropical verde e alta, a vegetação surpreendia com esparsas árvores baixas e de troncos retorcidos. E, na hora de caminhar por mais 1h30 rumo ao nosso QG das próximas três noites, então em um terreno escuro e plano, composto por quartzito e arenito, uma constatação: tão impactante quanto as rochas de formas surreais que víamos ao olhar para cima era o maravilhoso universo das pequenas coisas que se multiplicavam aos nossos pés. Flores minúsculas, semelhantes a mandalas psicodélicas, liquens e fungos de todas as cores, miniplantas carnívoras e insetívoras, com tentáculos cheios de detalhes, e até um sapinho preto, menor que um dedão, chamando a atenção como uma das espécies que só existem ali.

Nossa virada de ano no platô do Monte Roraima seria uma experiência única. Naquelas alturas, os grupos de campistas se abrigam das garoas constantes em cavernas e grutas curiosamente apelidadas de “hotéis”. Tem o Hotel Índio, o Sucre, o Basilio… Ficaríamos no Guácharo, batizado assim em homenagem a um pássaro local de hábitos noturnos ― e nome também da longa caverna que exploraríamos, nos arrastando como minhocas, dois dias depois. Quando o pôr do sol já dourava os paredões dos abismos diante de nós e a temperatura despencava de mais de 20°C para perto de zero grau, os mais corajosos ainda tomaram banho em uma das lagoas congelantes dos arredores. Os menos exigentes se contentaram com a higiene à base de lenços umedecidos. Ceia especial, um minúsculo champanhe bebericado por umas 20 bocas, abraços e desejos de feliz ano-novo. Nada de barulheira ou fogos de artifício. “Hoje somos da mesma família”, disse Teodoro Pérez, um simpático pemon de 50 anos que desde os 15 leva turistas ao monte. Suas duas filhas e outras duas parentes que integravam nosso staff entoaram algumas belas canções indígenas. Respondemos com dois ou três sambinhas. E, por volta de 10 horas da noite, sob uma bela lua cheia e um céu incrivelmente estrelado, todo o nosso grupo de pernas cansadas já dormia profundamente nas barracas.

 

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Feliz ano-novo

Acordar com o brilho do sol, entre 5 e 6 horas da manhã, foi uma rotina naqueles sete dias ― assim como dormir logo depois de cair a noite, entre 20 e 21 horas. Quanto mais andávamos no quarto e quinto dias, já na extensa planície, mais lugares incríveis conhecíamos. Vimos beija-flores, gaviões, cobras, aranhas, lagartos. E nos 24 quilômetros percorridos no primeiro dia do ano, trilhamos caminhos repletos de milhões de cristais de quartzo, mergulhamos nas águas amareladas do El Foso e atingimos o chamado Ponto Triplo. É onde um monumento demarca as fronteiras entre Venezuela (que tem 80% do Monte), Guiana (com 15%, ainda que sob contestação dos venezuelanos) e Brasil (com apenas 5%, onde o Parque Nacional do Monte Roraima brilha como um raro trecho do país situado acima da Linha do Equador, já no Hemisfério Norte). Se nosso roteiro fosse o de oito dias, teríamos ido além do incrível labirinto de pedras daquele dia, chegando até o chamado Hotel Coati para conhecer o abismo da Proa, no extremo norte do maciço, assim como o Lago Gladys (nome dado a uma das filhas do índio Teodoro). Não menos belas foram as paradas durante os 6 quilômetros do dia seguinte: o mirante La Ventana, onde uma sequência de arco-íris encantou a todos; as piscinas naturais denominadas “Jacuzzis”, com fundo forrado de cristais; a delicada cascata do Salto Catedral; e La Ventana de Kukenán (de onde se vê a cachoeira dos sonhos do velhinho Carl Fredricksen, do filme Up).

Como as espessas nuvens do Monte Roraima cobriram a Pedra Maverick, ponto mais alto já medido naquela montanha, o grupo ― bem sintonizado, depois de uma semana na trilha compartilhando bolhas nos pés e histórias de vida ― decidiu que a conquista da rocha em forma de carro ficaria para o dia seguinte. Acordaríamos de madrugada e subiríamos ao cume, a 2.810 metros de altitude, antes de iniciar a temida descida de volta. O tempo extra no entardecer alaranjado seria útil para descansar as peP1160622rnas, que seriam bastante exigidas ao trilharmos em dois dias os 28 quilômetros feitos em três dias na subida, completando 98 quilômetros de trekking. E foi a oportunidade perfeita para que cada um pudesse contemplar, pela última vez, as plantas minúsculas, as pedras surreais e os misteriosos penhascos do templo de Makunáima.

 

 

 

+55 95

INFO: Roraima Adventures ― Rua Coronel Pinto, 86, Sala 106, Boa Vista, tel. 3624-9611, roraima-brasil.com.br; Inparques ― inparques.gob.ve

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Hotel Euzebio’s ― Rua Cecília Brasil, 1.517, Boa Vista, tel. 2121-0300, hoteleuzebios.com.br

 
Publicado em:
Revista RED Report

Edição:
24

Data:
Fevereiro/Março de 2013

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