Diante de mim existem dezenas de barquinhos com velas descendo lentamente o rio que passa sob a ponte onde estou. Anoitece aqui na charmosa cidade colonial de Hoi An, no Vietnã, que é toda decorada por lanternas coloridas. É uma cena linda, singela e romântica que todo mundo tem que ver uma vez na vida.

 

Boletim da série Tailândia e Vietnã para o programa Repórter Viageiro, da Rádio Vozes

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O blog do Same Same traz relatos dos bastidores das reportagens reproduzidas neste site portfolio. São pequenas histórias que não foram contadas nas revistas em que foram publicadas.
 
quinta-feira, 12 dezembro 2013

Há algo de fascinante do desleixo com que são exibidas as 12.000 peças do Museu do Egito, meu primeiro programa na cidade do Cairo – onde pisei na quarta-feira, 11 de dezembro de 2013. Qualquer mortal pode chegar a um centímetro de praticamente qualquer obra, até mesmo cheirar e tocar sarcófagos e estátuas originais de milhares de anos antes de Cristo. Há no máximo um vidro cheio de marcas de dedos protegendo peças mal iluminadas e identificadas apenas por um pedaço de sulfite carcomido. Algo que deve dar urticária nos museólogos que cuidam tão bem das peças-irmãs exibidas no Louvre ou no British Museum. Mas as autoridades egípcias parecem não se importar, acostumadas que estão a conviver com maravilhas arqueológicas tão resistentes ao tempo e fartas (só o acervo permanente tem 150.000 peças). E não há melhor momento para mergulhar na cultura desse país tão importante para a humanidade: como os turistas escassearam desde a eclosão da chamada Primavera Árabe no Egito, em 2011, os viajantes não enfrentam filas e os preços estão ainda mais baratos que antes.

É melhor, também, aproveitar agora a chance de cafungar os incríveis tesouros de Tutankamon (o faraó que governou dos 9 aos 18 de idade) ou a múmia de Ramsés II (que teve 60 esposas e mais de 100 filhos) antes que fique pronto o museu moderno, em obras ao lado das pirâmides desde 2008 e com inauguração prevista para 2015.

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É do lado de fora do museu atual, porém, que o Cairo do século 21 ofusca até a história dos faraós. Estamos a poucos passos da Praça Tahir, epicentro das manifestações que resultaram na deposição de dois presidentes seguidos, Hosni Mubarak, em 2011, e Mohamed Morsi, em 2013. Um tanque de guerra está parado na via, com soldados de metralhadora em punho bem diante dele. O prédio imediatamente vizinho ao museu, do Partido Nacional Democrata, de Mubarak, está totalmente queimado e abandonado. E grafites enchem de vigor revolucionário os muros que ladeiam as ruas famosas por seu trânsito caótico. “Mas engana-se quem pensa que não é seguro circular pelo Cairo”, conta Mohamed Adeeb, um cineasta egípcio de 25 anos que eu viria a conhecer à noite. “Eu saio de um café às 5 horas da manhã sem receio”, continua sua colega, a farmacêutica Ingy Darwish. Para outro integrante da turma, Seif Eldin Tammam, agente de viagens da Eagle Travel (www.eagletvl.com), “a estabilidade do momento precisa ser divulgada ao mundo para que os viajantes voltem a movimentar a economia do país”.

 

Mulheres sem véu, jovens cosmopolitas bebendo álcool no Sequoia Restaurant

Mulheres sem véu, jovens cosmopolitas bebendo álcool no Sequoia Restaurant

 

Nos encontramos por volta das 22h no Sequoia (www.sequoiaonline.net), um restaurante cosmopolita onde meninas sem véu e rapazes bebendo vinho egípcio fumavam em narguilés algumas das mais de 20 essências do cardápio. Eles contaram como o uso de Twitter, Facebook e Instagram foram fundamentais para que estivessem entre os milhares de manifestantes da Praça Tahir. E esbanjaram consciência política ao compartilharem seu orgulho por participar da mudança dos rumos do Egito. Que o fantasma do jovem Tutankamon não me perturbe. Mas o melhor do meu primeiro dia no Cairo foi conhecer os vivos.

 

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Rio Nilo, que disputa com o Amazonas o título de maior do mundo

 
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