Sawadee ka!, disse, alongando-se ao pronunciar o último “a”, a sorridente morena de olhos puxados que nos deu as boas-vindas no aeroporto internacional de Bangcoc, em uma tarde de junho. Fez isso com as mãos em forma de prece, como manda o protocolo dos cumprimentos na Tailândia. “Mulheres dizem sawadee ka, homens falam sawadee krap“, ensinou, em português, Tassanee Norma, poliglota tailandesa que trabalha como guia há 23 anos. Estava acompanhada de outro nativo, Lert Narongchaisakun, um baixinho simpático que formaria com ela nossa dupla de anfitriões na missão de compartilhar os melhores sabores da cidade em pouco menos de uma semana. “Kop khun krap”, agradeci, já usando a segunda expressão que aprendi na língua local, enquanto seguíamos para o hotel cruzando arranha-céus, placas em língua estranha, fotos do supervenerado rei Bhumibol Adulyadej por todo lado e o sedutor caos de ruas atulhadas de carros e gente.

 

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JANTAR APERITIVO. As próximas aulas sobre os costumes locais seriam dadas no jantar, depois do descanso para se recompor de mais de 20 horas de voo desde São Paulo. Por recomendação da chef Siripen Sriyabhaya, a Yui, que dá aula de culinária em Chiang Mai, no norte do país, e volta e meia visita o Brasil, fomos ao despojado Taling Pling, que tem uma de suas quatro unidades em Silom, bairro da região central especialmente animado à noite. A placa da porta tem o desenho de um cozinheiro com seu pilão usado para macerar especiarias. Be-a-bá para iniciantes: pimentas, gengibre, coentro e capim-limão são alguns dos muitos ingredientes socados ali e usados em receitas frequentemente aromáticas e pratos muito bem apresentadas que se caracterizam por misturar os sabores salgado, doce, azedo e picante. À mesa, come-se com colher, sendo que o garfo é auxiliar e a faca nunca vai à mesa. Também não existe o hábito ocidental de servir primeiro a entrada, depois a sopa ou a salada, e só então o prato principal e a sobremesa: todos vêm ao mesmo tempo. Estreamos conhecendo saborosos pratos que levavam três tipos de curry – verde, amarelo e vermelho – e incluíam frango, peixe e carne de porco. Tudo acompanhado de arroz, que alivia o ardor das colheradas mais picantes e vem servido desde a forma de salgadinho aperitivo até adocicado, com leite de coco, na deliciosa sobremesa acompanhada de manga.

 

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Eu com meus anfitriões Norma e Lert

 

SALADA ASIÁTICA. Logo no passeio da primeira manhã vimos que petisca-se de tudo nas onipresentes bancas de rua de Bangcoc: desde noodles, prato preferido do café da manhã do nosso anfitrião Lert, a gafanhotos fritos, encontrados apenas na época da colheita do arroz. “Não fazemos só três refeições ao dia”, contou ele. “Aqui comemos seis ou sete vezes ao dia.” Muitos dos pratos são líquidos, em forma de sopa, e a maioria não é tão picante. Diferente do que se pode imaginar, as pimentas são foram introduzidas pelos mercadores indianos, que chegaram naquele pedaço do Sudeste Asiático no século 1, mas sim pelos portugueses, que trouxeram a novidade da América do Sul nos anos 1600. Ao caminhar pelos bairros indiano e chinês, percebemos que estes vizinhos influenciaram a Tailândia não só na comida, com seus curries e noodles, mas também na religião, como se nota nos suntuosos templos da Cidade Antiga. A começar pelo Grand Palace, parada de praticamente todos os 19 milhões de visitantes anuais que fazem do turismo a principal fonte de renda da Tailândia (o número é quatro vezes maior que o de estrangeiros que viajam ao Brasil). Coração do centro histórico e espiritual de Bangcoc, o grande templo que nasceu em 1782 junto com a fundação da cidade abriga a estátua de um Buda de esmeralda, em meio a telhados supercoloridos, painéis com pinturas milenares e imagens que fazem referência também ao hinduísmo e à mitologia chinesa – embora a religião oficial do reinado da Tailândia seja o budismo.

 

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FEIRA FLUTUANTE. Aproveitando que estávamos à beira do Chao Phray, o grande rio que cruza a metrópole, Norma nos levou a um de seus lugares favoritos para comer à beira rio: o Deck by the River, restaurante do hotel butique Sala Arun. Comemos salada de pomelo e um delicioso porco grelhado com capim limão diante de outro templo, o Wat Arun, vendo o vai-e-vém de todo tipo de embarcação: as que servem como ônibus flutuantes, as turísticas onde se come refeições a bordo, as que transportam ao turístico mercado flutuante de Damnoen Saduak, a duas horas dali, e os típicos barcos de cauda longa que nos levariam, à tarde, a uma navegação pelos canais estreitos da auto-entitulada Veneza Asiática.

 

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SOPA DE CULTURAS. Se durante o dia o passeio pelo rio retrata a vida como ela é para a população humilde, o compromisso da noite nos catapulta ao seleto grupo dos bons vivants amantes da alta gastronomia tailandesa. No Nahm, eleito um dos 50 melhores restaurantes do mundo em 2012 pelo ranking da revista inglesa Restaurant, jantamos sopa de pato ao leite de coco e curry de caranguejo com açafrão em meio a um ambiente repleto de peças de ouro e seda. A casa foi aberta há dois anos dentro do hotel butique Metropolitan, no bairro empresarial de Sathorn, pelo conceituado chef australiano David Thompson, autor de livros como Thai Street Food. “Nossa inspiração é a autêntica comida de rua”, conta o cozinheiro Troy Sutton. O nome do restaurante repete o do original de Londres, primeiro tailandês a ser estrelado pelo Guia Michelin na Europa.

 

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HORA DE IR PRO FOGÃO. O reconhecimento do potencial da culinária tailandesa como negócio milionário também foi feito por um estrangeiro no Blue Elephant, nossa parada na manhã seguinte. Foi depois do sucesso do restaurante thai aberto em Bruxelas em 1980 que o proprietário belga Karl Steppe decidiu abrir a grife em Bangcoc, 10 anos atrás. “Hoje temos 10 unidades espalhadas pelo mundo”, orgulha-se a tailandesa Nooror Somany, esposa de Karl, que é quem toca a empreitada. O casal se especializou em um filão de sucesso: ali acontece um curso de culinária considerado um dos melhores entre os 20 oferecidos na cidade – entre eles o da escola francesa Le Cordon Bleu. A aula ajuda a entender a complexidade da cozinha local. Depois de visitarmos uma feira de rua onde são comprados os ingredientes, voltamos à escola para aprender a preparar quatro receitas, com direito a degustar a criação no final. Minha melhor obra foi justamente o pad thai, prato que mistura noodles, camarão, ovo, amendoim, nabo e tofu, bem popular entre estrangeiros.

 

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O aprendiz e a mestra Nooror Somany

 

DEITADO COM BUDA. Caminhar ao longo dos 46 metros de extensão do famoso Buda deitado do templo Wat Pho, o maior de Bangcoc, parecia ser o melhor jeito de fazer digestão naquela tarde. Embora belíssimo, o monastério acabou sendo ofuscado pelo prazer proporcionado por uma de suas atrações: o centro de massagem. Aberta em 1955 como primeira escola de medicina tradicional do país, a universidade de massagem cresceu tanto que teve de ser transferida para fora do templo. Ali dentro, felizmente, restou um salão onde 60 profissionais atendem ao público. Uma hora de relaxamento no corpo ou nos pés custa apenas 15 dólares, cerca de 30 reais, e é tão boa que dá vontade de fazer três vezes ao dia. Existem respeitáveis casas de massagem em todo canto de Bangcoc, das barracas de rua na Khaosan Road, a famosa rua dos albergues e pubs de mochileiros, aos requintados spas de resorts como o Rarinjinda, no Grande Centre Point Hotel. Mas nenhuma substitui a experiência do Wat Pho.

 

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A pitoresca Khaosan Road

 

MUAY THAI E LADY BOYS. É também com hora marcada, diariamente às 18h, que se percebe outra curiosa tradição tailandesa: parar de caminhar ou trabalhar enquanto toca o hino nacional nas estações de rádio e auto-falantes das ruas. A cena impressiona especialmente em lugares movimentados, como na feira de Chatuchak, que acontece todos os fins de semana no bairro de mesmo nome e concentra centenas de barracas que vendem desde frutas exóticas – como rambutan e dragon fruit — até estátuas das típicas dançarinas tailandesas. Chega-se ali de metrô, evitando os megacongestionamentos. Os peculiares táxis rosa-choque, no entanto, são opção mais confortável e econômica à noite, quando não há trânsito. Vale a pena usá-los para conferir atrações populares como as lutas de muay thai (um dos estádios mais famosos fica em Lumpini) e os shows de dança no Calypso Cabaret, em Riverfront, protagonizados por 60 lady boys – como são chamados os superproduzidos travestis locais.

 

Passeando de tuc-tuc

Passeando de tuc-tuc

 

Outro clássico noturno são os jantares com shows de música e danças tradicionais, como a khon. Assistimos a um deles comendo muito bem na Sala Rim Naam, um dos três restaurantes do luxuosíssimo hotel Mandarin Oriental. Inaugurado em 1876, este ícone da hotelaria mundial surpreende tanto pelo luxo de suas instalações quanto pela excelência do serviço. Não é preciso, no entanto, pagar no mínimo 400 dólares para se hospedar ali: dá para conhecer o spa, fazer aulas de culinária ou simplesmente parar para um drink à beira-rio.

 

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DRINK NAS ALTURAS. A regra de “no mínimo um drink e um petisco” serve também para ver do alto Bangcoc em grande estilo, se possível no pôr-do-sol, a partir do bar Moon e do restaurante Vertigo, localizados no 61º andar do hotel Banyan Tree, ou do Sky Bar e do restaurante Sirocco, localizados no 63º andar do hotel lebua. Já no nível térreo, duas recomendações sofisticadas da restaurateur tailandesa radicada em São Paulo Marina Pipatpan foram testadas e aprovadas no badalado bairro de Sukhumvit. No Face, a arquitetura tradicional de um casarão de madeira compõe o cenário ideal para conhecer misturas de comida tailandesa com japonesa e indiana. Perto dali, antes de abrir sua pista para uma moderninha balada de música eletrônica, o todo-branco Bed Supperclub oferece, entre performances surpresas às sextas e sábados, incríveis menus-degustação. De comida thai, é claro.

 

Eu, Andréa e Norma

Eu, Andréa e Norma

 

Quando nossos dias de comilança, templos e massagens chegaram ao fim, não tivemos dúvida. Antes de viajar, voltamos ao Wat Pho para ganhar uma última sessão de relaxamento nos pés. E, no aeroporto, passamos na livraria para comprar alguns dos muitos livros de receitas que permitiriam tentar reproduzir em casa um pouquinho da deliciosa gastronomia tailandesa.

 

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SERVIÇO:

+ 66 2

INFO: Bed Supperclub – 26 Sukhumvit Soi 11, tel. 651-3537,

bedsupperclub.com; Blue Elephant – 233 South Sathorn Road Yannawa,

tel. 673-9353, blueelephant.com;  Calypso Cabaret – Asia Hotel, 296

Phayathai Road, tel. 653-3960, calypsocabaret.com; Cha Tu Chak Weekend

Market – Chatuchak Park MRT Station, chatuchak.org; Deck by the River

– Arun Residence, 36-38 Soi Pratu Nokyung, Maharat Road, tel.

221-9158, arunresidence.com; Face – 29 Sukhumvit Soi 38,, tel.

713-6048, facebars.com; Le Cordon Bleu Culinary School – 946 The Dusit

Thani Building,  tel. 237-8877, cordonbleudusit.com; Mandarin Oriental

– 48 Oriental Avenue, tel. 659-9000, mandarinoriental.com; Muay Thai

Lumpinee Boxing Stadium, Rama 4 Road, tel. 251-4303,

muaythailumpini.com; Nahm – The Metropolitan Hotel, 27 South Sathorn

Road, tel. 625-3388, nahm.como.bz; Rarinjinda Spa – Grande Centre

Point Hotel, 8th Floor, 153/2 Soi Mahatlek Luang 1, tel. 670-5599,

rarinjinda.com; Sirocco Restaurant/Sky Bar – Lebua Hotel, 1055 Silom

Road, tel. 624-9555, lebua.com; Taling Pling Thai Cuisine, 25

Sukhumvit Soi 34, tel. 258-5308, talingpling.com; The Metropolitan

Hotel, 27 South Sathorn Road, tel. 625-3333,

metropolitan.bangkok.como.bz; Vertigo Restaurant/Moon Bar – Banyan

Tree, 61st Floor, 21/100 South Sathon Road, tel. 679-1200,

banyantree.com; Watpo Massage – 2 Sanamchai Road, tel. 221-2974,

watpomassage.com;

AGRADECIMENTOS/SPECIAL THANKS: Embaixada Real da Tailândia em

Brasília; Mandarin Oriental (mandarinoriental.com); chef Marina

Pipatpan; guia Norma Tassanee (tassaneenorma@yahoo.com); Tourism

Authority of Thailand, tourismthailand.org; chef Siripen Sriyabhaya

(alotofthai.com)

 
Publicado em:
Revista RED Report

Edição:
21

Data:
Agosto/Setembro 2012

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