Cusco e outro teste da navalha

Fazer a barba em lugares tradicionais é uma das minhas manias de viagem mais divertidas. Depois de quase pegar tétano com uma navalha usada na Índia e sofrer pra explicar que queria uma costeleta curta em Mianmar, entre outras aventuras perigosas, a experiência que vivi há poucos meses no Peru foi fichinha.

Eu havia acabado de pegar a credencial de imprensa para cobrir a Festa do Sol, que aconteceria no dia seguinte, e Cusco estava abarrotada. Achei que seria bacana aproveitar as boas vibrações do solstício de inverno no Hemisfério Sul para dar um tapa no visual. A placa do lugar ostentava o pomposo nome “Piero’s II Peluqueria Unisex & Barber Shop”, e lá dentro a poltrona vinho era confortável. Ficava num ambiente bem limpinho, sem aquele mar de cabelos pelo chão – tanto que o Adriano Fagundes, meu amigo fotógrafo, também encarou aparar as madeixas.

O único porém era que o Belisário Bettencourt, o barbeiro que a sorte me reservou, não estava a fim de conversa.

 

Peru-4813

 

O barbeiro estava mais preocupado em admirar pela televisão as pernas das jogadoras de vôlei da seleção peruana, que duelavam contra as igualmente coxudas moçoilas da República Dominicana.

 

P1180702

 

Logo ali, onde eu poderia gastar meu vocabulário de espanhol (recém-aprimorado graças às boas aulas do colombiano Gabriel Reyes Canas), não consegui ficar batendo aqueles papos furados deliciosos que só os salões de cabeleireiros permitem.

 

P1180711

 

Belisário veio a me dar bola quando as peruanas – ou “las matadorcitas”, como outro cliente ali chamou – perderam, por 2 sets a 3, das dominicanas.

 

P1180696

 

Aí contou que acordaria bem cedo, na madrugada seguinte, para subir com a mulher, a filha de 9 anos e o filho de apenas 3 meses para garantir um lugar no morro no entorno de Sacsaywaman, onde poderiam assistir ao Inti Raymi de graça.

 

P1180686

 

A dica do Belisário foi decisiva para que fizéssemos aquela incursão fantástica que contei no posto anterior (O Lado B da Festa do Sol), acompanhando o Inti Raymi de trás das câmeras. Subimos da Plaza de Armas às ruínas de Sacwayaman numa carona inusitada, como dá pra ver na foto abaixo.

 

Peru-5725

 

Na picape, entre outras deidades sagradas para os incas, como a cobra, o puma e o condor, estava uma múmia das mais esquisitas. Que parece não ter gostado muito do meu visual de bandana e cara lisa feito bumbum de nenê…

Um comentário em “Cusco e outro teste da navalha”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *