Era como uma sinfonia com milhares de músicos na escuridão completa, tocando bem alto e com um resultado impressionantemente harmonioso. Sapos coaxavam, cigarras cantavam sem parar. Mas eram os macacos que chiavam de forma assustadora, especialmente o guariba, que guincha parecendo simular o rugido de uma onça-pintada. Lembrei-me do relato do Seu Manduca sendo atacado pelo felino, da cobra d’água, dos jacarés e aranhas que havia visto nos três dias anteriores. Me acalmei escutando a orquestra deitado em uma das três redes de um casebre sobre palafitas que ficava 2 metros acima da superfície do Rio Mamirauá e, em vez de paredes, tinha tela antimosquito.

 

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Através da tela e por trás das árvores, visualizei o nascer da lua cheia da Páscoa de 2013. E dormi imerso na música mais espetacular que já ouvi na vida.

 

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Outro concerto, menos misterioso e mais festivo, celebrou a bruma e a brisa da manhã. Agora comandado pelos pássaros, compôs o fundo ritmado de nosso retorno, de canoa, para a pousada, nossa base, onde o café da manhã regional em mesa comunitária nos esperava. Localizada a 10 minutos do casebre na floresta onde eu havia pernoitado com o guia Raimundo Morais e o fotógrafo Adriano Fagundes, a Uacari é uma hospedaria flutuante que boia solitária como o quartel-general de quem explora a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Trata-se de uma sucessão de dez bangalôs de telhados vermelhos, feitos de garrafa pet, que quebram a monotonia verde daquele trecho da região do Médio Solimões, entre o rio de mesmo nome e o Japurá. Sua localização, diante de uma bela curva do Rio Mamirauá, proporciona uma experiência tão rara de imersão na selva e de fácil avistamento de animais que o lugar se transformou na principal recomendação de turismo na Amazônia do guia de mochileiros Lonely Planet.

 

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Primeira experiência do gênero no Brasil, a área de mais de 1 milhão de hectares de Mamirauá nasceu do sonho do primatologista José Márcio Ayres (1954-2003), em 1990. Ele queria preservar o habitat do seu objeto de estudo, o uacari-branco, um macaco de cara vermelha que só existe nesse cafundó da Amazônia. Na contramão da prática dominante na época, que tirava as populações tradicionais de seus locais de origem em nome da preservação ambiental, Márcio liderou um movimento para mudar a lei. Ao se empenhar na fundação da primeira reserva de desenvolvimento sustentável, em 1996, o cientista deflagrou uma iniciativa para proteger a floresta, produzir pesquisas e estimular o turismo, permitindo que 10 mil ribeirinhos continuassem vivendo ali, cortando árvores, plantando e pescando para seu sustento – tudo de forma controlada. Deu tão certo que hoje há pelo menos mais cinco áreas do gênero Brasil afora. Ayres conseguiu ainda proteger o território vizinho de Mamirauá, criando a Reserva de Amanã, colada ao Parque Nacional do Jaú. Juntos, os três formam a maior extensão de floresta tropical protegida do planeta.

 

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A SAGA DA VIAGEM

Chegar a Mamirauá é uma aventura. Primeiro viajamos pela TAM por 3h40 de São Paulo a Manaus. De lá seguimos para Tefé, de onde partem as voadeiras, que navegam durante uma hora até a Pousada Uacari. A questão é a rota de mais de 500 quilômetros entre Manaus e Tefé. Levam-se 36 horas – um dia e meio – para fazer o deslocamento em navios de dois andares, onde embarcam 400 pessoas, cada uma acomodada na própria rede. Já nas lanchas rápidas, o tempo despenca para 12 horas. Os passageiros normalmente se sentam em poltronas reclináveis e têm direito a refrigeração e TV coletiva. Mais rápida e cara, embora sem a mesma experiência de interação com a realidade da Amazônia, foi nossa opção, o táxi aéreo: em duas horas completa-se o percurso, com a vantagem de se impressionar com a exuberância verde vista dos ares.

 

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O transporte aéreo, é verdade, não propiciou a mesma aura épica vivida nas embarcações pelos mochileiros que exploram Mamirauá – 85% deles estrangeiros. Quando, porém, entramos na lancha de Tefé para a pousada, uma tempestade carregou de emoção o passeio. Entre janeiro e julho, a temporada de chuvas na Amazônia transforma radicalmente cenários como o dessa região, conhecida como várzea. A superfície dos rios chega a subir 12 metros, obrigando os moradores a habitar casas erguidas sobre palafitas altíssimas. Construções flutuantes, como a pousada, também dançam ao sabor do rio por serem levantadas sobre madeiras leves como o açacu, que atua como boia. Em metade do ano, a população circula a pé, trabalha na roça, joga bola no campinho. Na outra parte, o ofício é a pesca e tudo depende do barco – até uma visita ao casebre do vizinho ou à igreja do bairro. Quem chega a Mamirauá nessa época do ano – como foi nosso caso – já é logo avisado: não há como percorrer as 16 trilhas locais praticando trekking; a mesma rota desses passeios é feita apenas em botes.

 

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O desembarque no calor úmido de Mamirauá é uma experiência especial. Todos os funcionários da Uacari se alinham para dar as boas-vindas aos novos hóspedes. “Hi, my name is Ednelza and I am the hotel manager”, apresentou-se Ednelza Martins da Silva, uma ex-empregada doméstica e ex-agricultora que há seis anos assumiu o cargo mais alto do estabelecimento. Depois dela falaram Judith, a cozinheira, Naíza, a copeira, e assim por diante. Todos exercitando a língua que aprendem em um dos mais de cem cursos ministrados pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que administra a reserva e as iniciativas ligadas a ela, como a pousada. “Fazemos parte do projeto de turismo de base comunitária, uma proposta pioneira na região e que há 15 anos serve como referência para outras unidades de conservação Brasil afora”, explica Ednelza. A pousada gera emprego por meio de passeios de mínimo impacto na reserva, tem seu lucro revertido para as 80 famílias da comunidade e utiliza práticas sustentáveis, como energia solar, captação de água da chuva, reciclagem e compostagem de lixo.

 

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INTERAÇÃO COM A COMUNIDADE

Ao longo dos quatro dias que passamos ali (há pacotes de três, quatro e sete diárias, com pernoite em quartos rústicos e avarandados, com mosquiteiros individuais), descobrimos que reside na vivência do turismo comunitário o grande diferencial de escolher Mamirauá como o local para desbravar a Amazônia. Pela manhã e depois do almoço, os hóspedes saem para observar animais ou visitar comunidades vizinhas. Nosso guia era o Morais, nosso companheiro na fantástica noite citada no começo deste texto, quando nos isolamos na mata. Morais é um cabeludo descendente de indígenas que contou já ter comido muita carne de peixe-boi quando a reserva ainda não existia e faltava àquela gente a consciência ecológica para cuidar dos recursos preciosos da região. “Hoje entendo que tudo isso vale ouro.” Foi uma delícia observar como Morais afiou seu ouvido para identificar os sons da densa floresta e simular o mesmo piado ou grunhido dos bichos, em busca de uma resposta do interlocutor. O grande barato de cada dia é justamente brincar de identificar quem cantou o quê e onde – e, sempre que possível, remar em busca do cantor em questão.

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Impressionante é que, mesmo passeando a 7 metros de altura do solo, como fizemos em março, driblando os galhos das árvores submersas, as grandes copas continuam lá nas alturas. No topo, é claro, se escondem os animais, dificultando o foco de nossos binóculos e câmeras fotográficas. O livreto de identificação dos pássaros catalogados na reserva lista 355 deles, com ilustrações, nomes populares e científicos de garças, gaviões, papagaios… Um dos mais belos é a cigana, que exibiu seu topete estilo moicano uma dezena de vezes durante nossas remadas silenciosas. Aranhas e sapos existem aos montes. No rio, botos, piranhas, jacaretingas e jacarés-açus são bem frequentes na seca, pois ficam mais concentrados. Mas são as cinco espécies de macacos do entorno da pousada as estrelas das observações: prego, guariba, de-cheiro, de-cheiro-de-cabeça-preta e uacari – estes últimos dois endêmicos, que praticamente só existem ali. “Nas pesquisas que fizemos entre 2007 e 2010, quando ocorreram 1.448 registros de grupos, constatamos que a presença humana não afasta os animais”, conta a bióloga gaúcha Fernanda Paim, que há oito anos acompanha a macacada em Mamirauá. “Ou seja, o turismo de mínimo impacto praticado aqui, com 20 turistas por fim de semana, não prejudica o ambiente dos primatas.”

 

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A onça-pintada, no entanto, vive escondida – ou nem tanto para o biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho e seu time, que se dedicam a rastrear os maiores gatos das Américas com uma antena de telemetria móvel e 40 câmeras em 20 pontos para observação. “Vi 30 onças nesses nove anos trabalhando aqui”, conta. Sorte tiveram os dez turistas hospedados na Uacari no início do ano, pois acompanharam parte da captura de Mudinha, Confuso, Zangado, Jandia e Cotó, todos atualmente soltos, mas seguidos virtualmente graças a coleiras com GPS. Não por acaso, a equipe de ecologia de vertebrados terrestres de Mamirauá trabalha para que, a partir de 2014, vire rotina os visitantes acompanharem o trabalho dos pesquisadores. Como a cheia amazônica isola várias onças na copa das árvores por meses a fio, não é difícil observá-las dos barcos.

 

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CIÊNCIA DE RESULTADOS

Atualmente, o contato com os pesquisadores se dá em palestras após o jantar. Foi assim que conhecemos, na última noite, um pouco mais sobre o boto-cor-de-rosa, na aula com a bióloga portuguesa Zulmira Gamito. “Já catalogamos 558 botos e 17 tucuxis na área do Lago Mamirauá.” Ela faz parte do grupo de cientistas que desenvolve no momento mais de cem pesquisas no Instituto Mamirauá e que frequenta as instalações da cidade de Tefé (e outras 12 bases flutuantes para trabalho de campo). Com laboratórios, biblioteca científica aberta às escolas da região, lojinha e uma estrutura de primeiro mundo, que não se espera encontrar nos confins da Amazônia, a sede do instituto é movimentada por 250 profissionais. Um estudo em andamento avalia a eficiência do sistema ecológico do esgoto doméstico da pousada. “A filtragem em tanques flutuantes remove quase 95% dos contaminantes quando a água volta ao rio”, diz o paulista João Paulo Borges Pedro, tecnólogo em meio ambiente. Graças àqueles que manejam o pirarucu, o peixe amazônico de até 3 metros – que já esteve ameaçado de extinção na região – aumentou em 425% sua população na última década: tudo porque os pescadores passaram a respeitar o período de reprodução e desova, fazendo com que seu comércio rendesse mais de 10 milhões de reais nesses dez anos. Já a equipe de manejo florestal empenhou-se para que o desmatamento fosse reduzido em 1.600% depois da criação da reserva.

 

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Os experimentos de Mamirauá têm dado certo porque unem com excelência o saber científico e o conhecimento tradicional. Pois é justamente nas conversas com os nativos que a imersão dos viajantes na realidade amazônica fica completa, especialmente nas visitas a algumas das oito comunidades situadas no território da reserva. No povoado Sítio São José, visitamos a sala de aula, onde pudemos acompanhar uma performance musical (com nosso guia Morais como percussionista!), ver como as hortaliças são plantadas sobre canoas flutuantes e comprar artesanato feito com sementes locais. Já em Vila Alencar, entendemos como os painéis que captam energia solar acionam o sistema de bombeamento de água do rio para a caixa d’água (e o sistema de purificação) que abastece as 28 famílias do vilarejo. Sem isso, os moradores teriam que carregar água desde o leito, que na seca passa a distantes 400 metros das casas mais próximas.

 

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Na hora de ir embora da Pousada Uacari, ao observar os funcionários sorridentes lado a lado, dando adeus ao barco, pensei em como a mudança na realidade dessa gente é tão valiosa quanto o desenvolvimento da ciência e a preservação do ecossistema amazônico. A gerente Ednelza, por exemplo, passou a difundir entre seus vizinhos o uso do mesmo sistema de banheiro seco ecológico de sua casa, e contou adorar multiplicar sua experiência quando viaja promovendo o torneio de futebol feminino com as mulheres de Mamirauá. Poucas transformações pessoais, no entanto, foram tão radicais quanto a do auxiliar de cozinha Vanderlei Rodrigues, o Seu Manduca. Ele viveu na pele o susto de encontrar uma onça, o que faz todos lembrarem que estamos em um dos locais mais selvagens do planeta. “Eu voltava de uma pescaria quando ela me atacou, mordeu meu rosto e caímos no rio”, contou. “Quase morri.” Hoje, os 28 pontos da cicatriz na face são discretos e o trauma foi superado, tanto que Seu Manduca já se deparou com outras cinco onças depois daquela, pois passou a integrar o grupo de apoio aos cientistas que capturam, monitoram e estudam o felino. E milita pela preservação da fera, orgulhoso por fazer parte da experiência pioneira de Mamirauá.

 

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SERVIÇO:

+55 97

INFO E AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá – tel. 3343-9700, mamiraua.org.br; Pousada Uacari – tel. 3343-4160, pousadauacari.com.br

 
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Publicado em:
Revista RED Report (TAM)

Edição:
26

Data:
Junho/Julho 2013

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