No Peru, o lado B da Festa do Sol

Ter passado duas semanas de junho baseado em Cusco foi fundamental para notar que existem duas Festas do Sol: a dos visitantes e a dos cusquenhos. A primeira é o Inti Raymi oficial, sobre o qual você pode ler melhor no post principal desse site: são mais de 700 artistas vestidos como incas em apresentações espetaculares para quase 100.000 turistas na Plaza de Armas (a praça principal), em Qorikancha (antigo Templo do Sol e atual Convento de Santo Domingo) e em Sacsaywaman (fortaleza inca sagrada a 2 quilômetros do centro). Todos os hotéis lotam em junho para ver a reprodução da maior cerimônia dos incas, o império latino que durou dois séculos e que viu seus 3.000 anos de cultura serem dizimados pelos espanhóis em apenas quatro décadas do século 16. Já a festa do sol mais contemporânea é a do povão.

Foto: Adriano Fagundes
Foto: Adriano Fagundes

 

Quem curte o lado B do Inti Raymi são os habitantes humildes de Cusco, que não podem pagar 90 dólares para sentar nas arquibancadas de Sacsaywaman. Essa turma é aquela que lota os morros do entorno para se divertir de graça – e foi para lá que eu e o fotógrafo Adriano Fagundes caminhamos depois da cerimônia principal, sempre em busca de boas histórias e imagens para nosso livro sobre o Rio Amazonas.

Peru-6196
Foto: Adriano Fagundes

Peruana descendente de incas, a camponesa Maurícia Huanka Hancco e outros cinco parentes chegaram cedinho, às 4:40 da manhã. Madrugaram para garantir uns bons palmos de gramado verdinho com vista do parque arqueológico de Sacsaywaman. Naquele 24 de junho, feriado de aniversário de Cusco, os Hancco acompanharam o espetáculo bem de longe, comendo e bebendo em acampamentos improvisados. Várias das mulheres vestiam o tradicional chapéu-coco, aqueles arredondados e duros como o de Charles Chaplin – e populares entre os homens nobres da Inglaterra no século 19 – que hoje são indumentária de muitas pastoras de Peru e Bolívia. Já crianças como Jair Aleksander, filho de Maurícia, aproveitaram para brincar no pula-pula e no tobogã infláveis do simplório parquinho de diversões que só pousa em Cusco no feriado do Inti Raymi.

Foto: samesamephoto
Foto: samesamephoto

“Pescamos umas duzentas trutas no lago da comunidade camponesa onde moramos, em Huilcapata, só para vender hoje”, contou a sobrinha de Maurícia, Anali Qquille, 22 anos, que trabalha como recepcionista de um albergue e era a única do grupo que falava espanhol (todas as outras se comunicam em quéchua, a língua mais falada por mais de 8 milhões nativos sul-americanos). No mesmo pequeno fogareiro, a família também preparou ponche e café para lucrar alguns soles a mais. Os clientes eram os cusquenhos que faziam seus próprios piqueniques no entorno, muitos deles mantendo o costume, comum no Inti Raymi, de preparar a Pachamanca. Trata-se de uma espécie de banquete andino, normalmente feito com carne e batatas em uma huatia. É assim que se chama o improvisado forno tradicional, construído cuidadosamente na forma de uma pirâmide oca feita de pedras e de terra, dentro da qual são colocados os alimentos. A fogueira acesa sobre outras pedras dentro do buraco acaba provocando o desmoronamento da huatia. A comida deve permanecer no calor da terra por um longo tempo até que seja resgatada e servida com o peculiar gostinho da terra.

 

P1190187

 

Visitamos umas três ou quatro huatias, tomamos cerveja com desconhecidos extremamente solícitos, aprendemos os nomes de várias das estranhas batatas locais –nos disseram haver mais de 2.000 tipos de batatas no Peru. Se o número é verdadeiro, confesso que ainda não sei. Mas tenho certeza de que passei, como um autêntico cusquenho, o dia do ano mais esperado pelos nativos da antiga capital inca.

 

P1190188

2 comentários em “No Peru, o lado B da Festa do Sol”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *