Ritual a Pachamama nos Andes

Por estarmos entre as montanhas sagradas dos Andes peruanos em pleno dia do solstício de inverno, data sagrada para quase todos os povos tradicionais do planeta, decidimos não perder a oportunidade. Aceitamos a oferta de subir um dos morros no entorno de Espinar, no entardecer de 21 de junho, para realizar um “pago a la tierra”.

Tratava-se de uma oferenda de gratidão a Pachamama – a mãe Terra, segundo os povos andinos – e seria conduzida por Felix Encia, um autêntico “paco”, como são chamados os xamãs no Peru. Para mim e para meu amigo, o fotógrafo Adriano Fagundes, o ritual parecia auspicioso também para nosso projeto. Aquele seria o trecho inicial do livro sobre o Rio Amazonas, em que temos trabalhado intensamente nos últimos seis meses.

 

FOTO: samesamephoto
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E foi lá para o alto do cerro, em algum ponto entre a nascente mítica do maior rio do planeta, no Nevado Ausangate, e a nascente geográfica, no Nevado Mismi, que Felix conduziu os quatro homens: eu, Adriano e nossos guias Juan Carlos Flores e Leonidas Oblitas, o Leo.

 

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FOTO: samesamephoto

 

A noite já caía quando o bruxo deu início ao transe. Pediu que acendêssemos a fogueira, os incensos de palo santo e que repetíssemos parte do seu texto, semelhante ao que ouviríamos dias depois na cerimônia inca do Inti Raymi, em Cusco (leia no post sobre a Festa do Sol). O paco saudou os apus (montanhas sagradas) Ausangate, Salkantay, Saqsaywaman, Machu Picchu, Wayna Picchu. Soprou – e pediu que soprássemos – as folhas de coca em direção às quatro direções. Aos poucos, foi esparramando, numa toalha colorida estendida sobre a terra, as oferendas que havíamos comprado numa feirinha rústica da cidade.

 

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FOTO: samesamephoto

 

O feto de lhama ressecado ele lambuzou com banha de lhama e depois cobriu com algodão e folhas de ouro e prata. Quatro espigas de milho de cores distintas foram alinhadas no centro. “O preto vai lhes trazer saúde, o amarelo não vai deixar faltar trabalho, o rajado atrai dinheiro e o branco representa a fartura da Terra”, explicou.

 

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FOTO Adriano Fagundes
www.adrianofagundes.com.br

 

No final daquela espécie de despacho, pediu que despejássemos sobre as espigas o vinho e a chicha (uma típica bebida alcoólica feita à base de milho fermentado). “Pachamama precisa daquilo que a gente gosta”, disse. Encerramos a cerimônia queimando todas as oferendas, o que transformou a fogueira em uma imensa e misteriosa labareda (tão enigmática quanto o colorido que aparece no céu na foto abaixo).

 

FOTO Adriano Fagundes www.adrianofagundes.com.br
FOTO Adriano Fagundes
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Cada gesto naquele ritual milenar tinha um sentido, e tudo aquilo agradecia por nossa saúde, pela nossa viagem e pela vida. Agradecemos respeitosamente a lua cheia que nascia, assim como ao grande Deus Sol. E descemos a montanha silenciosamente, valorizando as tradições deixadas pelos incas, antigos cuidadores de Cusco, de Machu Picchu, da nascente do Amazonas e de toda aquela natureza incrível ao nosso redor.

 

FOTO: Adriano Fagundes www.adrianofagundes.com
FOTO: Adriano Fagundes
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