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Primeiro o rei inca reverencia o sol. “Fonte quente e princípio da vida, te saudamos na sua mansão sagrada de Cusco, onde vives com a lua”, diz em quechua, a língua oficial do império. Em seguida, sopra folhas de coca aos quatro ventos e invoca os “apus”, espíritos que habitam as grandes montanhas dos Andes peruanos. “Apu Ausangate, apu Salqantay, apu Saqsaywaman, vamos à grande cerimônia”. Repleto de adereços dourados e penas, passa a realizar, uma a uma, as oferendas: despeja do jarro um pouco de chicha, bebida feita à base de milho fermentado, acende quatro fogueiras, oferece aos céus um pão sagrado… O rito de agradecimento pelo calor e pelo alimento dá sequência a mais uma série de cantos e danças de 682 súditos – entre eles 80 músicos. Todos seguem em procissão, bem paramentados com roupas coloridas e reluzentes como as do imperador índio.

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É 24 de junho e estamos em pleno solstício de inverno no Hemisfério Sul. Não fossem os celulares, os óculos de sol e as câmeras fotográficas que se multiplicam entre os 40.000 espectadores estimados, daria quase para acreditar que a cena se passa no século 15, durante a celebração original do Inti Raymi, a Festa do Sol. Este era o principal evento do calendário dos incas, que entre 1438 e 1533 formaram o maior império da América pré-Colombiana e que tinham em Cusco sua capital. Segundo os relatos do historiador Garcilaso de la Vega (1539-1616), cidadão cuzquenho filho de uma princesa inca e um invasor espanhol que escreveu quase tudo o que se sabe sobre a festa, o festival homenageia Inti, o Deus Sol da mitologia inca. Por meio da festa, rogava-se para que o astro rei garantisse abrigo e comida durante os dias frios vindouros. Cinco séculos depois, o Inti Raymi moderno reproduz esse mise-en-scène em forma de espetáculo, o maior do Peru. Ele encerra quase um mês de festas em Cusco, que fica a 1 hora de voo da capital Lima. E tem sido o principal atrativo para que, em cada um dos últimos dois anos, 180.000 turistas tenham desembarcado na cidade em junho, lotando os 94 hotéis locais.

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Saqsaywaman

SANGUE INDÍGENA

Os 3.800 turistas, estrangeiros em sua maioria, que se apertam por duas horas nas arquibancadas do sítio arqueológico de Saqsaywaman, onde acontece o terceiro e mais importante ato da Festa do Sol, provavelmente não sabem. Mas, sem o Inti Raymi, Cusco não teria se transformado em um dos mais procurados destinos do planeta. Só em 2012 foram quase 2 milhões de visitantes. “O resgate dessa cerimônia, nos anos 1940, mostrou aos cuzquenhos que deveríamos ter orgulho das nossas raízes incas”, conta Carlos Milla Vidal, dono do hotel boutique Casa San Blas e estudioso do tema. Segundo Milla, nessa época, quando Cusco tinha só 20.000 habitantes (hoje são 500.000), ter sangue indígena ali não era motivo de honra. Bacana naquela cidade que não conhecia o turismo e tampouco o progresso era ter traços hispânicos como os dos colonizadores europeus.

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Foi quando Humberto Vidal, o tio de Milla, teve a sacada de repetir a cerimônia do Sol, que havia acontecido pela última vez em 1535 e desaparecido junto com a cultura inca. “Ao vestirem seus ponchos tradicionais e repetirem tradições de seus ancestrais, os cuzquenhos passariam a resgatar sua auto-estima indígena e a se tratar como irmãos”, conta Roger Valencia Espinoza, proprietário da agência de viagens Andean Lodges e também fascinado pelo assunto. Deu certo. A ressurreição da Festa do Sol 400 anos depois da sua extinção passou a ser o ápice da celebração do aniversário de Cusco – não por acaso comemorado no mesmo dia. Em junho passado, alunos de diferentes colégios e integrantes de associações  e grupos de bairros disputaram quem tinha a performance folclórica mais festiva na charmosa Plaza de Armas. A praça ganhou uma estátua dourada do rei inca e, em seus postes antigos de luz amarelada, foram hasteadas várias bandeiras do arco-íris, cor oficial da cidade.

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TEMPLO SAGRADO

Três décadas antes da Festa do Sol ressurgir em Cusco, uma descoberta científica 110 quilômetros a noroeste dali nascia como embrião do que se tornaria mais tarde outro importante propulsor da revalorização da cultura inca. Foi em 1911 que o explorador norte-americano Hiram Bingham encontrou Machu Picchu, escondida sob uma floresta à beira do Rio Urubamba. Formada por construções de pedras erguidas de forma a bem aproveitar as águas das chuvas, a inclinação do terreno, os tremores de terra e os raios do sol, a maior relíquia arqueológica da América do Sul foi um discreto parque de diversões de arqueólogos até que o turismo começasse a acontecer ali e em Cusco, na segunda metade do século 20.

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Machu Picchu

Muito se aprendeu sobre os incas a partir de Machu Picchu. Depois de passar um século sob os cuidados dos estudiosos da Universidade de Yale, em Connecticut, nos Estados Unidos, 366 objetos incas encontrados pela equipe de Bingham voltaram, em 2011, ao solo cuzquenho. Eles agora fazem parte do Museo Machu Picchu Casa Concha e, assim como obras do Museo Inka e do Museo de Arte Precolombino de Cusco, servem de inspiração para os artesãos locais. A cruz inca e uma série de grafismos estão presentes tanto nas peças em ouro e prata vendidos na rede local de joalherias Inka Treasure como nos tecidos coloridos feitos com lã de lhamas e alpacas andinos – e comercializados em fantásticas feiras de lugarejos como Pisac, a meia hora de Cusco, no chamado Vale Sagrado.

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Feira de artesanato de Pisac

TREKKING NAS ALTURAS

Convertido em destino obrigatório para amantes de relíquias arqueológicas e para pessoas do mundo todo que passaram a se interessar pela cultura andina, Machu Picchu se tornou o templo inca por excelência – mesmo que a ciência ainda não afirme categoricamente se aquilo foi um altar, um ponto privilegiado de observação astrológica, um refúgio de inverno do rei ou uma comunidade agrícola de técnicas avançadas. Não importa. Todos os meses, 100.000 pessoas, 70% delas vindas do exterior, batem perna por lugares fotogênicos da cidade sagrada como a Porta do Sol e o cume da montanha vizinha, o Wayna Picchu.

Machu Picchu vista do alto do pico Wayna Picchu

Machu Picchu vista do alto do pico Wayna Picchu

A maioria dos turistas chega de trem, mas são os apreciadores das longas caminhadas que descobrem o quanto os incas tinham de fôlego. Na Trilha Inca clássica, é possível conhecer ao menos quatro sítios arqueológicos ao subir e descer ladeiras ao longo de 42 quilômetros e quatro dias. Como há limitação no número de caminhantes por dia, a fila de espera é longa: em junho, só havia reserva para quem quisesse fazer o roteiro em outubro (e desembolsando cerca de 350 dólares para as agências).

Ausangate

Ausangate

O efeito positivo dessa superlotação é que os andarilhos foram obrigados a descobrir outras rotas andinas tão ou mais belas que a Trilha Inca, como as de Lares e Salkantay. A menos explorada turisticamente chama-se Ausangate e permite mais interação com comunidades tradicionais e suas heranças da cultura inca. Em caminhadas de 5 dias por altitudes entre 4 e 5 mil metros, em meio a picos nevados, costuma-se ficar hospedado em alojamentos quentinhos onde a comida e a música ficam por conta de legítimos descendentes incas.

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Vale de Ausangate

 

GASTRONOMIA DE RAIZ

O passado inca foi apagado da paisagem quando o conquistador Francisco Pizarro dominou Cusco, em 1533, mas as raízes peruanas sobrevivem nos hábitos dos cusquenhos. A comida continua sendo aquela ofertada ao Deus Sol nas cerimônias de Inti Raymi. Com grãos dos mais variados tamanhos e cores, o milho — que representava 65% da dieta dos moradores de Machu Picchu — é vendido como doce ou salgado nas ruas, ou mesmo cru, em mercados como o de San Pedro. A chicha é consumida pura ou na forma de um refresco roxo chamado chicha morada, tão doce quanto a folclórica Inka Cola (que, dizem, é mais vendida do que a Coca-Cola). E, embora a Plaza de Armas tenha McDonald’s e Starbucks, muitos turistas preferem os estabelecimentos tradicionais para comer pastel de choclo (doce de milho) e tomar chá de coca (bom para amenizar o mal-estar causado pelos 3.400 metros de altitude de Cusco).

Plaza de Armas, Cusco

Plaza de Armas, Cusco

Mas é nos bons restaurantes que os chefs têm exibido por que a cozinha do Peru se tornou um atrativo e tanto. A começar pelo Chicha, de Gaston Acurio, o cozinheiro mais famoso do país – que, por sinal, se prepara para abrir uma segunda casa na cidade. Ali seu time serve desde pratos feitos com carne de alpaca até criações como o costa y sierra, um risoto picante à base de frutos do mar. Outro favorito dos turistas é o Cicciolina, de ambiente animado e todo tipo de pimenta pendurada sobre o balcão. Seu menu vai além dos clássicos ceviches, pisco sours e lomos saltados (carne de vaca servida com cebolas, arroz e batatas), avançando em receitas contemporâneas de influência asiática.

 

Restaurante do Museo de Arte Precolombino

Restaurante do Museo de Arte Precolombino

 

LUXO E TRADIÇÃO

Não é difícil entender por que meia dúzia de hotéis cinco estrelas concentram nada menos que um terço dos 2.153 leitos da hotelaria cusquenha (um bom jeito de escolher um hotel para o seu bolso é pelo trivago).  Essa grandes construções coloniais seculares cheias de clima atraem os visitantes para uma imersão na história e na cultura peruanas. O Monastério, por exemplo, reciclou clausuras minúsculas habitadas por monges do Mosteiro de Santo Antônio Abade em 1600 para transformá-los em aconchegantes ninhos de luxo – e com um restaurante que apresenta até ópera ao vivo no jantar. Foi ali que Antônio Fagundes, Paola Oliveira e quase 60 participantes da novela Amor à Vida ocuparam 33 dos 126 quartos por 20 dias de abril.

Hotel Monastério, da rede Orient-Express

Hotel Monastério, da rede Orient-Express

Com suítes mais amplas e modernas, o vizinho Palácio Nazarenas pertence à mesma rede, a Orient-Express, e paparica seus hóspedes com chão do banheiro aquecido, roupões de seda e mordomo para dar aula de pisco sour no quarto. Mas é no Sumaq, localizado em Aguas Calientes, povoado-base para quem visita Machu Picchu, que os viajantes melhor aliam conforto e tradição. Após visitar as ruínas, qualquer hóspede pode participar de uma cerimônia de gratidão a Pachamama, a mãe Terra, exatamente como faziam os incas.

 

Palácio Nazarenas Hotel

Palácio Nazarenas Hotel 

SERVIÇO

PARA PESQUISAR SOBRE O PERU:

Promperu

promperu.gob.pe

 

PARA PLANEJAR SUA IDA DURANTE A FESTA DO SOL:

Inti Raymi

emufec.gob.pe

 

PARA SABER MAIS SOBRE A RUÍNA MAIS LEGAL DA AMÉRICA:

Machu Picchu

machupicchu.gob.pe

 

Crédito das fotos: samesamephoto (siga no Instagram!)

 
Publicado em:
Revista TAM Nas Nuvens

Edição:
Edição 69

Data:
Setembro 2013

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